Onde estão os seres humanos que realmente põem em prática este mais alto de todos os mandamentos? Onde está o sacerdote que o ensina de modo puro e verdadeiro?
“Eu sou o Senhor, teu Deus, tu não deverás ter outros deuses a Meu lado!” Essas palavras são dadas de modo tão claro, tão peremptório, que não deveria ser possível absolutamente um desvio! Cristo também apontou isso reiteradamente, com grande nitidez e severidade. Tanto mais lastimável é, pois, que milhões de pessoas passem por isso desatentamente, devotando-se a cultos que se acham em brusca oposição a esse mais alto de todos os mandamentos. O pior de tudo é que desprezam esse mandamento de seu Deus e Senhor com crédulo fervor, na ilusão de honrar a Deus e de lhe ser agradável nessa manifesta violação de Seu mandamento!
Esse grande erro só pode persistir dentro de uma crença cega, onde são excluídos quaisquer exames, pois crença cega nada mais é do que falta de reflexão e preguiça espiritual dessas pessoas, que, tal como preguiçosos e dorminhocos, procuram evitar o mais possível acordar e levantar, pois acarreta obrigações cujo cumprimento temem. Cada esforço lhes parece um horror. É, pois, muito mais cômodo deixar que outros trabalhem e pensem por eles.
Todavia, quem deixa que os outros pensem em seu lugar, dá-lhes poderes sobre si, rebaixa-se a criado, tornando-se assim preso. Deus, no entanto, deu ao ser humano uma força de livre resolução, deu-lhe a faculdade de raciocinar, de intuir e, para tanto, terá de receber, evidentemente, uma prestação de contas de tudo aquilo que essa faculdade de livre resolução condiciona! Com isso Ele queria criaturas humanas livres, não, criados!
É triste quando um ser humano, por preguiça, se torna terrenalmente escravo, mas terríveis são as conseqüências quando ele se desvaloriza de tal maneira espiritualmente, que se torna um adepto bronco de doutrinas que contrariam os mandamentos perfeitos de seu Deus. Nada adianta eles procurarem abafar os escrúpulos que aqui e acolá despertam, com a desculpa de que por fim aquelas pessoas que introduziram desvios nas doutrinas terão de arcar com a maior responsabilidade. Isso em si já está certo, mas, além disso, cada um individualmente ainda é especialmente responsável por tudo aquilo que pensa e faz. Integralmente, nada disso lhe pode ser perdoado.
Aquele que não põe em prática, em toda a extensão possível, as faculdades da intuição e do raciocinar a ele outorgadas, torna-se culpado!
Não é pecado, mas dever, que cada um, ao despertar da maturidade, também comece a refletir sobre aquilo que até aí lhe foi ensinado, mediante o que assume plena responsabilidade de si mesmo. Não podendo colocar suas intuições de acordo com alguma coisa disso, então também não deve aceitá-lo cegamente como certo. Apenas se prejudica a si próprio, como em uma compra malfeita. O que não lhe é possível manter por convicção, deve deixar, pois do contrário seu pensar e seu atuar tornam-se hipocrisia.
Aquele que omite isto ou aquilo de realmente bom, porque não pode compreendê-lo, de longe ainda não é tão abjeto como aqueles que, sem convicção, se agregam a um culto que não compreendem de modo total. Todas as ações e pensamentos provenientes de tal incompreensão são vazios, e de tal vacuidade não pode resultar, automaticamente, qualquer efeito recíproco bom, porque na vacuidade não se encontra qualquer base viva para algo de bom. Assim tornar-se-á uma hipocrisia, que equivale à blasfêmia, porque com isso se procura enganar Deus com algo que não existe. Faltam intuições vivas! Isso torna aquele que age dessa maneira um desprezível, um expulso!
Os milhões de seres humanos, pois, que impensadamente veneram coisas que contrariam manifestamente os mandamentos divinos, encontram-se, não obstante qualquer eventual fervor, incondicionalmente manietados e totalmente excluídos de uma escalada espiritual.
Somente a convicção livre é viva, e só ela pode, por conseguinte, criar algo vivo! Uma tal convicção, porém, só pode despertar mediante análises rigorosas e profundas intuições. Onde ainda houver a menor incompreensão, sem se falar em dúvidas, nunca pode surgir convicção.
Somente o compreender pleno e sem lacunas equivale à convicção, a qual unicamente possui valor espiritual!
É francamente doloroso presenciar nas igrejas a multidão que se persigna, se curva e se ajoelha irrefletidamente. Tais robôs não devem ser contados entre pessoas que raciocinam. O sinal da cruz é o signo da Verdade, e com isso um signo de Deus! Torna-se, pois, culpado aquele que se utiliza desse signo da Verdade, se seu íntimo, no momento da prática, não for ao mesmo tempo verdadeiro em todos os sentidos, se suas intuições não estiverem total e incondicionalmente sintonizadas com a Verdade. Para tais pessoas seria cem vezes melhor que deixassem esta persignação, reservando-a para momentos em que tenham sintonizada toda sua alma com a Verdade, portanto assim também com o próprio Deus e Sua vontade, pois Deus, seu Senhor, é a Verdade.
Idolatria, porém, e transgressão aberta do mais sagrado de todos os mandamentos de seu Deus é quando prestam honras a um símbolo, as quais cabem somente a Deus!
“Eu sou o Senhor, teu Deus, tu não deverás ter outros deuses a Meu lado!”, está dito expressamente. Conciso, nítido e claro, sem permitir sequer o mínimo desvio. Também Cristo apontou especialmente para essa observância necessária. Propositalmente e de maneira significativa denominou-a, justamente perante os fariseus, de lei suprema, isto é, aquela lei que em circunstância alguma pode ser quebrada ou alterada. Essa designação diz ao mesmo tempo que todas as outras coisas boas e todas as outras crenças não podem ganhar valor total, se essa lei suprema não for cumprida de modo integral! Que tudo até depende disso!
A esse respeito, por exemplo, contemplemos, totalmente livres de preconceitos, a veneração da custódia! Muitas pessoas encontram nisso uma contradição ao claro mandamento supremo.
Espera o ser humano que seu Deus desça para essa hóstia transmutável, como explicação de que presta a ela honraria divina? Ou que Deus, com a consagração de tal hóstia, seja forçado a descer? Uma coisa é tão irracional quanto a outra. Tampouco pode ser criada uma ligação direta com Deus mediante semelhante consagração, pois o caminho para lá não é tão simples nem tão fácil. Não podem os seres humanos e nem os espíritos humanos, de modo algum, percorrê-lo até o final.
Se, pois, uma pessoa se prostra diante duma figura esculpida em madeira, uma outra diante do Sol e uma terceira diante da custódia, cada uma assim está pecando contra a suprema lei de Deus, desde que considere nisso algo divino, portanto o próprio Deus vivo e, portanto, espere disso imediatas graças e bênçãos divinas! Em tal errada pressuposição, esperança e intuição encontrar-se-ia a transgressão verdadeira, idolatria aberta!
E tal idolatria é praticada muitas vezes com fervor pelos adeptos de muitas religiões, conquanto de maneira diversa.
Cada pessoa que cumpre seu dever, oriundo de suas faculdades de raciocinar sincero, terá de aí ficar em dúvida, que só conseguirá abafar temporariamente e de modo forçado, mediante o erro de uma crença cega, assim como um vadio negligencia seus deveres cotidianos pelo sono da indolência. A pessoa sincera, porém, intuirá, de modo categórico, que terá de procurar em primeiro lugar clareza em tudo quanto se lhe deva tornar sagrado!
Quantas vezes Cristo explicou que os seres humanos deviam viver conforme suas doutrinas, a fim de auferir lucro disso, quer dizer, portanto, a fim de poder chegar à escalada espiritual e à vida eterna. Na expressão “vida eterna” já se patenteia a vivacidade espiritual, mas não a indolência espiritual. Com a indicação para o viver conforme suas doutrinas, ele advertiu, expressa e nitidamente, a respeito da aceitação bronca de suas doutrinas, por ser errado e inútil.
Um vivenciar, evidentemente, só pode se dar sempre através da convicção, jamais de modo diferente. Convicção, no entanto, condiciona plena compreensão. Compreensão, por sua vez, um raciocinar intenso e um examinar individual. Devem-se avaliar as doutrinas com a própria intuição. Disso se depreende, automaticamente, que uma crença cega é totalmente errada. Tudo quanto é errado, porém, facilmente pode levar à ruína, ao descalabro, jamais, contudo, à escalada. Escalada equivale à libertação de toda pressão. Enquanto existir ainda algures uma pressão, não se pode falar de uma libertação ou salvação. O incompreendido, porém, é uma pressão que não se desfará antes que o lugar da pressão ou lacuna seja afastado pela compreensão plena.
Crença cega equivale sempre à incompreensão, portanto, jamais poderá ser convicção e, conseqüentemente, não trará nenhuma libertação, nenhuma salvação! Pessoas que se restringiram à crença cega não podem ser vivas espiritualmente. Igualam-se aos mortos e não têm nenhum valor.
Se uma pessoa começa a raciocinar direito, acompanhando serena e atentamente todos os acontecimentos, ligando-os com lógica, então chegará por si mesma à convicção de que Deus, em Sua pureza perfeita e de acordo com Sua própria vontade criadora, não pode chegar à Terra!
A pureza absoluta e a perfeição, portanto justamente o divinal, excluem uma descida à matéria. A diferença é grande demais para que seja possível qualquer ligação direta, sem que se leve exatamente em conta as necessárias transições, condicionadas pelas espécies enteais e materiais, que se encontram de permeio. O levar em conta dessas transições, no entanto, apenas pode se efetivar pela encarnação, como se deu com o Filho de Deus!
Mas como este “reintegrou-se ao Pai”, portanto à sua origem, assim também se encontra outra vez no divinal, estando por isso de idêntico modo separado do terrenal.
Uma exceção nisso significaria uma torção da vontade divina criadora e, por sua vez, manifestaria uma falha em sua perfeição.
Como, porém, a perfeição é inseparável da divindade, não resta nenhuma outra possibilidade de que também sua vontade criadora seja perfeita, o que tem de ser considerado equivalente a imutável. Se os seres humanos também fossem perfeitos, cada um devia e podia, logicamente, andar sempre e exatamente no mesmo caminho do outro.
Somente a imperfeição pode permitir diversidades!
Exatamente em cumprimento às perfeitas leis divinas é que é tirada ao Filho de Deus, depois de sua “reintegração ao Pai”, bem como a Este mesmo, a possibilidade de estar pessoalmente na matéria, portanto, de descer à Terra. Não sem encarnação, de acordo com as leis da Criação!
Por essas razões, toda adoração divina de qualquer objeto material na Terra tem de equivaler à transgressão da lei suprema de Deus, porque unicamente ao Deus vivo podem ser prestadas honras divinas, e Este não pode estar presente na Terra justamente devido à Sua divindade.
Por sua vez, devido também à perfeição de Deus em Sua vontade criadora, o corpo de matéria grosseira do Filho de Deus tinha de ser da mesma forma puramente terreno, não devendo portanto ser denominado ou considerado como divino.*(Dissertação Nº 58: Ressurreição do corpo terreno de Cristo)
Tudo o que está em contradição a isso demonstra logicamente dúvidas na absoluta perfeição de Deus, e deve, por conseguinte, ser também errado! Isso é incontestavelmente uma medida infalível da verdadeira fé em Deus.
Com puro simbolismo é algo diferente. Cada símbolo preenche de modo estimulante sua finalidade boa, enquanto for seriamente considerado como tal, pois sua contemplação ajuda muitos a uma meditação maior e mais concentrada. Para muitos será mais fácil, ao contemplar os símbolos de sua religião, dirigir seus pensamentos para o Criador de modo menos turvo, não importando com qual nome Ele lhes é compreensível. Seria, portanto, errado duvidar do elevado valor das práticas religiosas e simbólicas; é indispensável, tão-só, que aí nada chegue ao ponto de adoração e veneração de objetos.
Uma vez que o próprio Deus não pode chegar à Terra, à matéria grosseira, é obrigação unicamente do espírito humano subir o caminho até o espírito-enteal do qual se origina. E a fim de mostrar esse caminho, desceu algo do divino mediante encarnação, porque somente no divinal encontra-se força primordial, da qual pode fluir a Palavra viva. Mas o ser humano não pode supor que algo de divino permaneceu na Terra, a fim de que cada pessoa, tão logo lhe surja o desejo, possa imediatamente ser absolvida de modo especial. Para a obtenção da absolvição encontram-se as leis férreas de Deus na Criação, e somente o incondicional cumprimento das mesmas pode trazer absolvição! Oriente-se segundo elas, quem quiser atingir as alturas luminosas!
Ninguém deve comparar Deus perfeito com um soberano terrestre, que em seu critério imperfeito e humano pode efetuar atos arbitrários de anistia, quanto a sentenças proferidas pelos seus juízes de igual espécie. Algo assim não é possível na perfeição do Criador e de Sua vontade, una com Ele!
O espírito humano precisa finalmente se acostumar ao pensamento de que ele mesmo tem de se mover bem energicamente, a fim de obter absolvição e perdão, e nisso finalmente cumprir seu dever que indolentemente deixou de lado. Ele deve animar-se e trabalhar em si próprio, se não quiser cair nas trevas dos condenados! Dever confiar no seu Salvador significa confiar nas palavras dele. Tornar vivo pela ação o que ele disse! Nada de diferente consegue ajudar! De nada lhe adianta a crença vazia. Crer nele não significa outra coisa senão dar-lhe crédito. Irremediavelmente perdido está todo aquele que não trabalha diligentemente para alçar-se por aquela corda que lhe foi colocada na mão pela Palavra do Filho de Deus!
Se a criatura humana quiser realmente ter seu Salvador, tem de se animar finalmente para a vivacidade e atividade espiritual, as quais não visam exclusivamente vantagens e prazeres terrenos, e tem de se esforçar para cima, ao encontro dele. Não pode arrogantemente esperar que este baixe até ela. A Palavra indica-lhe o caminho para lá. Deus não corre atrás da humanidade, mendigando, quando ela forma uma imagem errada Dele, afastando-se por isso e seguindo caminhos errados. Tão cômodo não é. Mas como tão absurda concepção se alojou em muitas pessoas, devido à compreensão errônea, a humanidade antes de mais nada terá de aprender novamente a temer seu Deus, reconhecendo, na reciprocidade inevitável de uma crença cômoda ou morta, que a vontade Dele se encontra firme na perfeição e não se deixa torcer. Quem não se adaptar às leis divinas, será ferido ou mesmo triturado, conforme virá a suceder por fim aos que se entregam a tais idolatrias, prestando honras divinas ao que não é divino! O ser humano terá de chegar ao reconhecimento: o Salvador o aguarda, mas não o busca!
A crença, ou mais acertadamente dito a ilusão, que a maior parte da humanidade traz hoje em si, tinha de falhar, conduzindo até mesmo à miséria e à ruína, por ser morta, e não conter em si verdadeira vida!
Assim como Cristo, outrora, limpou o templo, expulsando os vendilhões, do mesmo modo, antes de tudo, os seres humanos devem ser fustigados, a fim de saírem de toda a indolência de seu pensar e intuir em relação ao seu Deus! Continue, pois, dormindo sossegadamente, quem outra coisa não quiser, e refestele-se comodamente no almofadão macio da auto-ilusão de que seja acertado pensar bem pouco e de que finalmente cismar seja pecado. Horroroso será o seu despertar que se encontra mais próximo dele do que presume. De acordo com a sua preguiça ser-lhe-á então medido o quinhão!
Como pode uma pessoa que crê em Deus, que tem refletido sobre Sua essência e Sua grandeza, que sabe, acima de tudo, como a vontade perfeita de Deus se encontra na Criação em forma de leis atuantes da natureza, esperar que lhe possam ser perdoados os seus pecados mediante qualquer penitência, imposta de modo absolutamente contrário a essas leis divinas de categórica reciprocidade. Mesmo ao Criador isso não seria possível, porque as leis da Criação e da evolução emanadas de Sua perfeição contêm, por si só, em seus efeitos, e atuando de modo perfeitamente automático, com inamovível justiça, recompensa ou castigo, pelo amadurecer e colher de boa ou má semeadura do espírito humano.
Tudo o que Deus quer, cada um de Seus novos atos de vontade, tem de conter em si, sempre de novo, a perfeição; não pode, portanto, apresentar o mínimo desvio com relação aos atos de vontade anteriores; pelo contrário, deve estar de conformidade com estes em todos os sentidos. Tudo, mas tudo mesmo, tem de seguir, sempre de novo, os mesmos caminhos, devido à perfeição de Deus. Um perdão diferente daquele obtido pelo cumprimento das leis divinas, que se encontram na Criação e pelas quais cada espírito humano terá de passar categoricamente no seu percurso, se quiser chegar ao Reino de Deus, é, pois, coisa impossível; portanto, também qualquer perdão imediato.
Como pode uma pessoa, raciocinando um pouco, esperar quaisquer desvios? Seria, sim, uma diminuição expressa de seu Deus perfeito! Quando Cristo, em sua existência terrena, disse a este ou àquele: “Teus pecados estão perdoados”, isso estava absolutamente certo, pois no rogar sincero e na fé firme encontra-se a garantia de que a respectiva pessoa passaria a viver no futuro de acordo com a doutrina de Cristo, e dessa forma teria de encontrar o perdão dos pecados, pois se colocaria de acordo com as leis da Criação, não procedendo mais contra as mesmas.
Quando, pois, uma pessoa impõe penitência a outrem, segundo critério próprio, a fim de declarar então seus pecados como saldados, está iludindo dessa forma a si e aos que dela solicitam auxílio, não importando se consciente ou inconscientemente; coloca-se, sem escrúpulos, muito acima da própria divindade!
Se os seres humanos, pois, finalmente quisessem considerar seu Deus de modo mais natural! Ele, cujos atos de vontade criaram inicialmente a natureza viva. Dessa maneira, porém, em sua crença cega e ilusória, fazem Dele somente um fantasma; no entanto, Ele é tudo menos isso. Justamente na perfeição natural ou naturalidade perfeita, como fonte primordial de todo o existir, como ponto de partida de tudo quanto é vivo, a magnitude de Deus é tão colossal e inconcebível para o espírito humano. Mas nos ensinamentos de muitas doutrinas encontram-se freqüentemente torções e complicações forçadas, pelo que qualquer fé pura é desnecessariamente dificultada ao ser humano e às vezes se torna de todo impossível, porque ficará nisso privada de qualquer naturalidade. E quantas contradições incríveis estão contidas em várias doutrinas!
Trazem, por exemplo, freqüentemente, como pensamento fundamental, a onisciência e perfeição da vontade e da resultante Palavra de Deus! Nisso, porém, naturalmente, há de se encontrar também uma imutabilidade indesviável, nem sequer por um fio de cabelo, porque perfeição não é de se imaginar diferentemente. No entanto, as atuações de muitos representantes de religiões demonstram dúvidas a respeito da própria doutrina, visto encontrarem-se em imediata contradição com a mesma, negando visivelmente suas bases fundamentais pelos atos! As confissões auriculares com decorrentes penitências, por exemplo, o comércio de indulgências por dinheiro ou orações que devem resultar em imediato perdão de pecados e outros costumes similares a estes, analisando-se serenamente, constituem uma negação da vontade de Deus que se encontra nas leis da Criação. Quem não dirige os pensamentos, de modo saltitante, para coisas flutuantes, sem base, outra coisa não encontrará nisso senão uma absoluta diminuição da perfeição de Deus.
É absolutamente natural que a errônea pressuposição humana de poder dar perdão aos pecados, e outras investidas semelhantes contra a perfeição da vontade divina, tinham de levar a grosseiros excessos. Quanto tempo perdurará ainda a tolice de supor que se possa manter um comércio assim imundo com o Deus justo e Sua imutável vontade!
Se Jesus, como Filho de Deus, disse outrora aos seus discípulos: “Os pecados serão perdoados àqueles a quem perdoardes”, então isso não se referia a um direito de atuação geral e arbitrária.
Isso, pois, teria sido equivalente a um desmantelamento da vontade divina na inamovível força dos efeitos recíprocos, que encerram em si, atuando vivamente, recompensa e castigo com justiça incorruptível, isto é, divina e, portanto, perfeita. Uma interrupção consentida.
Isso Jesus jamais poderia e nem teria feito, ele que veio para “cumprir” as leis, não para derrubar!
Com essas palavras referia-se ele ao fato, inerente à vontade do Criador e de acordo com as leis, de que uma pessoa pode perdoar a outra pessoa aquilo que de mal lhe foi feito por aquela pessoalmente! O atingido tem o direito e o poder de perdoar aquilo, porque com esse perdão sincero quebra-se o efeito inicial do carma, tirando-lhe desde logo a força que, do contrário, infalivelmente se teria formado para a outra na reciprocidade, sendo que nesse processo vivo se encontra também, simultaneamente, real perdão.
Isso, contudo, somente pode partir da própria pessoa atingida em relação ao causador ou atuante, não de outra forma. Por isso reside tanta bênção e libertação no perdão pessoal, quando este for intencionado e intuído de modo sincero.
Uma pessoa que não tenha participação direta fica excluída dos fios da reciprocidade, devido à natureza da coisa, não podendo, pois, interferir de modo vivo, isto é, eficiente, por não estar ligada. Em tais casos apenas intercessão lhe é possível; no entanto, o efeito depende do estado anímico das pessoas diretamente envolvidas nos respectivos casos. Terá de permanecer de fora, não podendo assim proporcionar perdão. Isso repousa exclusivamente na vontade de Deus, que se manifesta nas leis da justa reciprocidade, contra as quais Ele próprio jamais agiria, porque, provenientes de Sua vontade, são perfeitas desde o início.
É da justiça de Deus que, seja o que for que aconteça ou tenha acontecido, só o prejudicado pode perdoar, na Terra ou mais tarde no mundo de matéria fina; do contrário, o impacto da reciprocidade terá de atingir o causador, e através dessa efetivação a culpa então será de fato liquidada. Mas essa efetivação proporcionará, concomitantemente, o perdão do atingido de alguma maneira que está entrelaçada na efetivação, ou o atingido com esta. Uma vez que os fios de ligação permanecem insolúveis até aí, não é possível de outra forma. Isso não é vantagem apenas para o causador, mas também para o atingido, visto que este, sem a concessão do perdão, tampouco poderia chegar-se de todo à Luz. Inflexibilidade teria de impedi-lo disso.
Assim, ser humano algum consegue perdoar pecados alheios, pelos quais não seja ele, pessoalmente, o atingido. A lei da reciprocidade ficaria sem ser influenciada por isso, em relação a tudo que não esteja entrelaçado por um fio vivo, que somente o estado de ser atingido diretamente pode gerar. Tornar-se melhor, unicamente, é o caminho vivo para o perdão!*(Dissertação Nº 6: Destino)
“Eu sou o Senhor, teu Deus, tu não deverás ter outros deuses a Meu lado!” devia permanecer marcado como que com letras de fogo no espírito de cada ser humano, qual a natural proteção contra toda e qualquer idolatria!
Quem realmente reconhece Deus em Sua magnitude, deve intuir como blasfêmia todas as atuações divergentes.
Uma pessoa pode e deve visitar um sacerdote a fim de buscar ensinamentos, contanto que este esteja deveras apto a dar-lhos. Se, porém, alguém exigir diminuir a perfeição de Deus, por meio de qualquer ação ou modo errôneo de pensar, então deve afastar-se dele, pois um servo de Deus não é simultaneamente um plenipotenciário de Deus, que pudesse ter o direito de, em Seu nome, exigir e conceder.
Também nisso existe um esclarecimento bem natural e simples que, sem circunlóquios, indica o caminho certo.
Um plenipotenciário de Deus, pela natureza da coisa, nem pode ser um ser humano, a menos que provenha diretamente do divinal, portanto, que traga em si próprio algo divino! Unicamente nisso pode haver pleno poder.
Como, porém, o ser humano não é divino, então é impossível que possa ser um plenipotenciário ou representante de Deus. O poder de Deus não pode ser transferido a ser humano nenhum, porque o poder divino se encontra exclusivamente no próprio divinal!
Esse fato lógico exclui de todo, em sua simplicidade absoluta e de modo automático, qualquer escolha humana dum substituto terrestre de Deus, ou a proclamação dum Cristo. Qualquer tentativa nesse sentido terá de receber impresso o cunho da impossibilidade.
Por conseguinte, uma escolha ou aclamação por criaturas humanas, em tais assuntos, nem pode entrar em consideração, mas apenas uma emissão direta do próprio Deus!
As opiniões humanas a esse respeito não são decisivas. Estas, pelo contrário, conforme todo o acontecido até agora, sempre estiveram longe da realidade, não se harmonizando com a vontade de Deus. Para os que pensam, é inconcebível a crescente obstinação doentia com que os seres humanos procuram sempre de novo ultrapassar seu real valor. Eles, que em sua mais elevada perfeição espiritual mal conseguem alcançar o degrau mais baixo do consciente no eterno espírito-enteal! No entanto, justamente hoje, um grande número de seres humanos terrenos, em suas intuições, pensamentos e esforços, nem sequer diferem muito dos animais desenvolvidos ao máximo, a não ser por um grande intelecto.
Tal qual insetos, esvoaçam e formigam em confusão, como se valesse, para alcançar o alvo máximo, fervorosa lufa-lufa e correria. Tão logo, porém, seus alvos forem examinados mais de perto e com maior atenção, mostrar-se-á logo o vazio e a nulidade desse febril esforço, que realmente não é digno de tal fervor. E do caos dessa balbúrdia se eleva a presunção desvairada de poderem eleger, reconhecer ou recusar um enviado de Deus. Nisso haveria um julgamento daquilo que jamais seriam capazes de compreender, se Aquele, que se acha acima, não se inclinar para eles, tornando-se compreensível. Faz-se alarde agora por toda a parte da ciência, do raciocínio e da lógica, aceitando-se com isso os mais grosseiros paradoxos, que se encontram em tantas correntes contemporâneas.
Para milhares não adianta desperdiçar palavras a esse respeito. Acham-se de tal maneira imbuídos de seu saber, que acabaram perdendo toda a capacitação para raciocinar com singeleza e de modo simples sobre algo. Destinam-se somente àqueles que ainda conseguiram conservar suficiente naturalidade para desenvolver uma sadia capacitação própria de julgar, tão logo lhes seja dada a linha direcional para tanto. Àqueles que não se juntam cegamente, uma vez a esta, outra vez àquela corrente da moda, para em seguida e de idêntica maneira abandoná-la imediatamente ante a primeira dúvida manifestada por ignorantes.
Não é preciso muito, numa reflexão serena, para chegar ao reconhecimento que de uma espécie de ser não pode se originar uma outra, com a qual nada tenha em comum. Bastam os conhecimentos mais elementares das ciências naturais para se verificar isso. Uma vez que as ramificações das leis da natureza no mundo de matéria grosseira promanam da fonte primordial viva de Deus, claro se torna que elas devam ser encontradas na idêntica e inabalável lógica e rigidez também no caminho ulterior em direção a Ele, até mais puras e mais claras ainda, quanto mais próximas se encontrarem do ponto de partida.
Assim como o espírito humano não pode ser transplantado para um animal na Terra, a fim de que um animal vivo deva assim tornar-se um ser humano, do mesmo modo não pode algo divino ser implantado em um ser humano. Jamais poderá desenvolver-se algo diferente do que aquilo que a origem trouxe consigo. A origem consente no desenvolvimento, sim, de diversas espécies e formas de composição, como se pode conseguir por meios de enxertos de árvores ou por cruzamentos nas procriações, mas mesmo aí os resultados mais extraordinários terão de permanecer dentro das matérias básicas constituídas pela origem.
Uma mistura entre ser humano e animal pode se manter apenas nos limites dos corpos grosso-materiais, pois estes têm a sua origem na mesma materialidade. A origem interior do ser humano e do animal não pode ser interligada.*(Dissertação Nº 49: A diferença de origem entre o ser humano e o animal)
É impossível introduzir ou conseguir algo que esteja acima da própria origem, o que nela pois não estava contido, como ocorre com a diferença entre a origem espiritual do ser humano e o divinal.*(Dissertação Nº 51: Espírito)
Cristo veio do divino-inenteal, como Filho de Deus; trazia da sua origem o divinal em si. Ser-lhe-ia impossível, porém, transferir esse vivo divinal a uma outra pessoa que só pode promanar do espírito-enteal. Conseqüentemente, não podia dar plenos poderes a ninguém para ações que competem unicamente ao divinal, como, por exemplo, perdão dos pecados. Isso apenas pode ocorrer na efetivação dos fundamentos da vontade divina inerentes à Criação, os quais se equilibram exatamente na lei da reciprocidade, onde a justiça imutável do Criador vive de modo autônomo, na perfeição inapreensível ao espírito humano.
Uma autorização do Filho de Deus ante os seres humanos, portanto, podia apenas se referir àquelas coisas que, de acordo com a origem do espírito humano, fossem humanas, jamais ao divinal!
Evidentemente, também a origem do ser humano pode finalmente de modo lógico ser reconduzida até Deus, mas não está no próprio Deus, pelo contrário, fora do divinal; por isso o ser humano descende apenas indiretamente de Deus. Nisso está a grande diferença.
Plenos poderes, como, por exemplo, os que competem ao cargo dum administrador, poderiam existir apenas, automaticamente, na mesma e imediata origem. Isso pode ser facilmente compreensível a cada um, porque um plenipotenciário deve possuir todas as capacitações do outorgante desses poderes, a fim de poder atuar no lugar dele em alguma atividade ou em algum cargo. Um plenipotenciário, portanto, devia vir diretamente do divino-inenteal, como o foi Cristo.
Se, contudo, uma pessoa empreender isso, mesmo que de boa fé, resulta, novamente, pela natureza da coisa, que sua determinação não poderia ter nenhum valor de grande alcance e nenhuma vida, a não ser puramente terrenais. Mas os que vêem nela mais do que isso, incorrerão em erro que só depois do falecimento tornar-se-lhes-á claro e que os fez perder todo o tempo terreno para uma ascensão. Ovelhas perdidas, que seguem um falso pastor.
Assim como esta lei suprema: “Eu sou o Senhor, teu Deus, tu não deverás ter outros deuses a Meu lado”, igualmente as outras leis são mui freqüentemente violadas e não observadas devido à incompreensão.
E, contudo, os mandamentos na realidade outra coisa não são do que a explicação da vontade divina, que se acha na Criação desde os primórdios, e da qual não se pode desviar nem pela espessura dum fio de cabelo.
Como se torna tolo, sob essa consideração, o princípio de tantos seres humanos, contrário a cada pensamento divino e a cada perfeição, de que “um fim justifica os meios”! Que confusão absurda não causaria isso nas leis da vontade divina, se pudessem ser assim alteradas. Quem puder formar pelo menos uma pequena noção de perfeição, a esse não restará outra coisa do que rejeitar de antemão tais impossibilidades. Tão logo uma pessoa procure formar uma imagem certa da perfeição de Deus, isso poderá tornar-se para ela um guia indicador e poderá servir-lhe para melhor compreensão de todas as coisas na Criação! O saber da perfeição de Deus e o fato de tê-la sempre em mente são a chave para a compreensão da obra de Deus, à qual pertence igualmente o próprio ser humano.
Então reconhecerá a força dominadora e a severa advertência da sentença: “Deus não se deixa escarnecer!” Por outras palavras: Suas leis se cumprem ou se efetuam imutavelmente. Ele deixa funcionar as engrenagens da Criação, conforme as ajustou. Um homúnculo nada alterará nisso. Se tentar, o máximo que poderá conseguir será que todos aqueles que o seguirem cegamente sejam dilacerados juntamente com ele. De nada lhe adianta, se acredita de modo diferente.
Bênçãos só poderá auferir quem se colocar por completo dentro da vontade de Deus, que mantém a Criação em Suas leis da natureza. Mas isso só consegue quem as conhece realmente.
Devem ser condenadas como mortas e, portanto, prejudiciais, as doutrinas que exigem crença cega; somente aquelas que, como através de Cristo, conclamam para o tornar-se vivo, isto é, para o raciocinar e analisar, a fim de que possa surgir convicção resultante de verdadeira compreensão, proporcionam libertação e salvação!
Somente a mais condenável irreflexão pode supor que a finalidade da existência do ser humano consista, principalmente, na correria com vistas à obtenção das necessidades e dos prazeres corpóreos, para, finalmente, mediante algum gesto externo e bonitas palavras, deixar se libertar calmamente de toda a culpa e das conseqüências de suas negligências indolentes na vida terrena. O percurso pela vida terrena e o passo para o Além, por ocasião da morte, não são como uma viagem cotidiana, para a qual se compra a passagem apenas no último momento.
Com tal crença o ser humano duplica sua culpa! Pois qualquer dúvida na justiça incorruptível de Deus perfeito, é blasfêmia! A crença no arbítrio e fácil perdão dos pecados, no entanto, é um testemunho cabal da dúvida na justiça incorruptível de Deus e de Suas leis; mais ainda, confirma diretamente a crença na arbitrariedade de Deus, o que equivale à imperfeição e insuficiência!
Pobres crédulos dignos de lástima!
Ser-lhes-ia melhor permanecer ainda incrédulos, então poderiam encontrar sem impedimentos e mais facilmente o caminho que presumem já ter.
Salvação reside apenas em não reprimir medrosamente os pensamentos que nascem e a dúvida que com isso desperta em tantas coisas, pois aí se manifesta o sadio impulso pela Verdade!
Lutar com a dúvida, porém, é o analisar, ao qual terá de se seguir, indiscutivelmente, a condenação do lastro dogmático. Só mesmo um espírito inteiramente liberto de toda a incompreensão consegue se elevar, radiosamente convicto, às alturas resplandecentes, ao Paraíso!