Quando ocorreu a morte de Cristo, rasgou-se no Templo a cortina que separava o Santíssimo da humanidade. Tal acontecimento é tido em conta como símbolo de que, com o sacrifício do Salvador, cessava imediatamente a separação existente entre a humanidade e a divindade, isto é, ficava criada uma ligação imediata.
Tal interpretação, porém, é errada. Pela crucificação rejeitaram as criaturas humanas o Filho de Deus como o Messias esperado, com o que a separação se tornou maior! Rasgou-se a cortina porque, conseqüentemente, não havia mais necessidade do Santíssimo. Ficou exposto à vista e às correntes impuras, uma vez que, simbolicamente expresso, o divinal depois desse fato não pôs mais o seu pé sobre a Terra, tornando-se assim supérfluo o Santíssimo. Portanto, exatamente o contrário das interpretações de até agora, nas quais novamente, como tantas vezes, apenas se evidencia a grande presunção do espírito humano.
A morte na cruz não foi também um sacrifício indispensável, mas um assassínio, um verdadeiro crime. Qualquer outra explicação constitui uma evasiva que deve valer ou como desculpa ou como produto da ignorância. Cristo não desceu à Terra absolutamente com a intenção de se deixar crucificar. Nisso também não reside libertação! Cristo foi crucificado, no entanto, como um incômodo portador da Verdade, devido à sua doutrina.
Não foi a sua morte na cruz que podia e devia trazer a libertação, mas a Verdade que outorgou à humanidade em suas palavras!
A Verdade, porém, era incômoda aos então dirigentes de religiões e de templos, um aborrecimento, visto lhes abalar fortemente a influência. Exatamente conforme ainda hoje, novamente, sucederia em tantos lugares. Quanto a isso, a humanidade não mudou. Os dirigentes de outrora se apoiavam, assim como os de hoje, em antigas e boas tradições, mas estas tinham se tornado, por causa dos praticantes e esclarecedores, meras formas rígidas e vazias, sem serem mais vivas em si. Idêntico quadro ao que hoje novamente se apresenta de modo freqüente.
Mas aquele que queria trazer essa vida indispensável à Palavra existente, trouxe com isso naturalmente uma revolução nas práticas e explicações, não na própria Palavra. Libertou o povo da rigidez e vacuidade opressoras, salvou-o disso, e, para aqueles, isso foi, mui naturalmente, um grande aborrecimento, ao reconhecerem logo quão energicamente fora interferido assim nas rédeas de sua errada direção.
Por isso o portador da Verdade e libertador do fardo das interpretações errôneas teve de sofrer suspeita e perseguição. Quando não se conseguiu, apesar de todos os esforços, torná-lo ridículo, tratou-se de apresentá-lo como inverossímil. Para tanto devia servir o “passado terrestre”, como filho dum carpinteiro, para tachá-lo de “inculto e por isso incapaz para a elucidação!” De um “leigo”. Tal como acontece também hoje em relação a cada um que enfrente dogmas rígidos, os quais abafam já no germe todo o esforço ascendente, livre e vivo. Nenhum dos adversários, por precaução, aprofundou-se em seus esclarecimentos, pois mui acertadamente sentiam que diante de uma réplica pura e objetiva deveriam ser derrotados. Ativeram-se, pois, em difamações vis, mediante seus instrumentos venais, a ponto de não temerem, por fim, em momento para eles propício, acusá-lo falsamente em público e levá-lo à cruz, a fim de afastar junto com ele a ameaça ao seu poderio e prestígio.
Essa morte violenta, outrora comumente praticada pelos romanos, não constituiu em si a salvação e nem a trouxe. Não remiu nenhuma culpa da humanidade, não a libertou de coisa alguma, antes sobrecarregou mais ainda a humanidade, por se tratar de um assassínio da mais baixa espécie!
Se, pois, até os dias atuais, disso se desenvolveu um culto, aqui e acolá, vendo nesse assassínio um fato fundamental, necessário à obra de salvação do Filho de Deus, então o ser humano fica assim afastado justamente do mais precioso, daquilo que única e exclusivamente pode trazer a salvação. Desvia-o da missão essencial do Salvador, daquilo que constituiu a necessidade de sua vinda à Terra, proveniente do divinal. No entanto, isso não se deu para sofrer a morte na cruz, pelo contrário, foi para anunciar a Verdade no amontoado da rigidez dogmática e da vacuidade, que arrastam o espírito humano para baixo! Foi para descrever as coisas entre Deus, a Criação e o ser humano, conforme são realmente. Dessa forma, tinha de cair automaticamente sem efeito tudo quanto o limitado espírito humano havia engendrado a tal respeito, e que encobria a realidade. Só então o ser humano pôde ver claramente diante de si o caminho que o conduz para cima.
Somente no trazer essa Verdade e na concomitante libertação de erros, reside a salvação, única e exclusivamente!
É a salvação da visão turva, da crença cega. A palavra “cega” já caracteriza suficientemente a situação errada.
A Ceia antes de sua morte foi uma Ceia de despedida. Quando Cristo disse: “Tomai, comei, este é meu corpo. Bebei todos disto, este é meu sangue do novo testamento, que será derramado para muitos, para o perdão dos pecados”, declarava com isso que estava disposto até mesmo a aceitar a morte na cruz, de modo a ter ensejo de transmitir com seus esclarecimentos a Verdade à humanidade perdida, que indica, única e exclusivamente, o caminho para o perdão dos pecados.
Diz também, textualmente: “para o perdão de muitos”, e não acaso “para o perdão de todos”! Por conseguinte, apenas para aqueles que aceitassem suas explicações e delas tirassem aplicações vivas.
Seu corpo destruído pela morte na cruz e seu sangue derramado devem assim contribuir para que se reconheça a necessidade e a seriedade dos esclarecimentos trazidos por ele. Essa urgência deve ser exclusivamente sublinhada pela repetição da Ceia e na Ceia!
Que o Filho de Deus não tenha recuado nem mesmo diante de uma tal hostilidade da humanidade, cuja probabilidade já tinha sido reconhecida de antemão, antes de sua vinda,*(Dissertação Nº 48: Fenômenos universais) devia indicar especialmente a situação desesperada do espírito humano, que só poderia ser arrancado da ruína, agarrando-se à corda de salvação da Verdade sem disfarce.
A referência do Filho de Deus, durante a Ceia, à sua morte na cruz, é apenas uma última e expressa indicação sobre a necessidade categórica de seus ensinamentos, os quais veio trazer!
Ao tomar a Ceia deve, pois, cada pessoa se dar conta sempre de novo de que o próprio Filho de Deus não temeu a pressuposição de uma morte na cruz causada pela humanidade, e que deu corpo e sangue a fim de possibilitar à humanidade o recebimento da descrição do real fenômeno no Universo, que mostra nitidamente os efeitos das leis imutáveis que trazem em si a vontade divina! Com esse reconhecimento da severidade amarga, que realça a necessidade urgente da Mensagem para a salvação, deve renascer constantemente nas criaturas humanas nova força, novo impulso para realmente viverem segundo os claros ensinamentos de Cristo, a fim de não só compreendê-los direito, mas também agirem em tudo de acordo com eles. Com isso obterão então também perdão de seus pecados e salvação! Não diferentemente. Nem imediatamente. Mas encontrá-los-ão impreterivelmente, no caminho que Cristo mostra em sua Mensagem.
Por essa razão deve a Ceia sempre de novo vivificar o acontecimento, a fim de que não se enfraqueça o zelo salvador em seguir os ensinamentos trazidos com tamanho sacrifício, pois pela indiferença que se inicia ou pelas formas meramente externas, as criaturas humanas perdem essa corda de salvação, tornando a cair nos tentáculos dos erros e da destruição.
É um grande erro as criaturas humanas acreditarem que pela morte na cruz esteja garantido o perdão de seus pecados. Esse pensamento acarreta o terrível dano de que todos aqueles que nisso crêem serão por isso retidos do verdadeiro caminho para a salvação, que reside, única e exclusivamente, no fato de viver de acordo com as palavras do Salvador, de acordo com as explicações que deu, por ser conhecedor e por abranger tudo com a visão. E essas explicações mostram, em quadros práticos, a necessidade de observar e dar apreço à vontade divina, que se encontra nas leis da Criação, bem como aos seus efeitos, na obediência e na desobediência.
Sua obra libertadora consistiu em trazer essa explicação, que devia mostrar as falhas e os danos das práticas religiosas, pois ela trouxe em si a Verdade, a fim de iluminar a escuridão crescente do espírito humano. Não consistiu na morte na cruz, tampouco no fato de a Ceia ou a hóstia consagrada poderem oferecer perdão dos pecados. Esse pensamento é contra toda a lei divina! Com isso cai também o poder dos seres humanos de perdoar pecados. Uma pessoa só tem o direito e também o poder de perdoar o que lhe foi feito por outrem pessoalmente, e mesmo assim só quando seu coração, sem ser influenciado, a isso impele.
Quem refletir seriamente reconhecerá a Verdade e, assim, o caminho verdadeiro! Os que têm preguiça de pensar e os indolentes que não conservarem continuamente preparada, com cuidado e atenção, a lamparina a eles confiada pelo Criador, isto é, a faculdade de examinar e elucidar, facilmente podem perder a hora, como as tolas virgens da parábola, quando a “Palavra da Verdade” chegar a eles. Uma vez que se deixaram adormecer em cansado comodismo e crença cega, não serão capazes de reconhecer, por sua indolência, o portador da Verdade ou noivo. Têm de ficar então para trás, quando os vigilantes entrarem no reino da alegria.