Para tal esclarecimento é necessário antes saber que o ser humano terreno não se encontra na Criação primordial, mas numa Criação posterior. A Criação primordial é, única e exclusivamente, o reino espiritual, que existe por si realmente, conhecido pelas criaturas humanas como o Paraíso, cujo ápice constitui o Supremo Templo do Graal como o portal na direção do divinal, que se encontra fora da Criação. A Criação posterior, porém, é o assim chamado “mundo” em seu eterno circular orbital, abaixo da Criação primordial, e cujos universos solares isolados estão sujeitos à formação e à desintegração, portanto, ao amadurecer, envelhecer e decompor, porque não foram criados imediatamente pelo divinal, como a imperecível Criação primordial, o Paraíso. A Criação posterior originou-se da vontade dos primordialmente criados e está sujeita à influência dos espíritos humanos em desenvolvimento, cujo caminho evolutivo passa através dessa Criação posterior. Essa também a razão das imperfeições aí, não encontradas na Criação primordial, que está sujeita à influência imediata do divino Espírito Santo.
Para consolo dos primordialmente criados, desesperados por causa da crescente imperfeição da Criação posterior, a qual se fazia sentir cada vez mais, clamava-se do divinal: “Aguardai aquele que Eu escolhi... para vosso auxílio!” Assim como, razoavelmente nítido, transmite a lenda do Graal como tradição proveniente da Criação primordial. —
Agora, ao tema propriamente: cada ação terrena pode ser considerada somente como expressão exterior de um processo íntimo. Por “processo íntimo” entende-se uma vontade intuitiva espiritual. Cada vontade intuitiva é ação espiritual que se torna incisiva para a existência de um ser humano, pois resulta em subida ou em descida. Em caso algum pode ser colocada no mesmo degrau que a vontade mental. A vontade intuitiva refere-se ao núcleo do ser humano propriamente; a vontade mental, porém, somente a um círculo exterior, mais fraco. Contudo, ambas nem sempre precisam se tornar terrenalmente visíveis, apesar de seus efeitos categóricos. A ação terrena, grosso-material, não é necessária para acumular um carma. Por outro lado, não existe nenhuma atividade grosso-material terrena que não tenha sido precedida por uma vontade mental ou por uma vontade intuitiva. A atividade terrenalmente visível, por isso, depende da vontade mental ou da vontade intuitiva, mas não inversamente.
Aquilo que é realmente incisivo para a existência de um espírito humano, para a sua subida ou descida, está, no entanto, ancorado de modo tão forte na vontade intuitiva,que a criatura humana quase nem atenta, mas para cujos efeitos categóricos, e que jamais falham, não há nenhuma fuga, nem qualquer paliativo ou adulteração. Somente nisso reside o verdadeiro “vivenciar” do espírito humano, pois a vontade intuitiva é a única alavanca para o desencadeamento das ondas de força espiritual, que se encontram na obra do Criador, aguardando apenas o estímulo da vontade intuitiva dos espíritos humanos, a fim de serem levadas então imediatamente à efetivação, de modo multiplamente aumentado. Exatamente a esse tão importante fenômeno, o mais importante até, pouca atenção tem dado até agora a humanidade.
Por tal motivo quero apontar sempre de novo para um ponto principal, aparentemente simples, mas que encerra tudo em si: a força espiritual que perpassa a obra da Criação só pode obter ligação com a vontade intuitiva dos espíritos humanos; tudo o mais fica excluído de uma ligação!
Já a vontade mental não consegue mais ligação alguma, muito menos quaisquer produtos da vontade mental. Esse fato exclui toda a esperança de que a verdadeira força principal na Criação sequer pudesse ser posta em conexão com qualquer “invenção”! Contra isso é passado um ferrolho inamovível. O ser humano não conhece essa força principal, bem como os seus efeitos, embora esteja dentro dela. O que este ou aquele pensador ou inventor imagina como força primordial, não o é! Trata-se então sempre apenas de uma energia bem secundária, da qual poderão ser descobertas muitas ainda com efeitos surpreendentes, sem que com isso se aproxime sequer um passo da força propriamente, da qual o espírito humano se serve diariamente de modo inconsciente. Infelizmente como que brincando, sem dar atenção às horríveis conseqüências dessa desmesurada leviandade! Em sua irrestrita ignorância, tenta sempre desviar criminosamente a responsabilidade das conseqüências para Deus, o que, no entanto, não o liberta da grande culpa com a qual se sobrecarrega... pelo seu não querer saber.
Quero tentar apresentar aqui uma imagem clara. Uma pessoa, por exemplo, intui inveja. Diz-se comumente: “A inveja brota dela!” De início trata-se de uma intuição genérica, muitas vezes nem claramente consciente ao espírito humano. Essa intuição, contudo, ainda nem moldada em determinados pensamentos, portanto sem ter ainda “chegado” ao cérebro, por si só é aquilo que traz a chave, única capacitada a estabelecer ligação com a “força viva”, a formar a ponte para tanto. Imediatamente flui então tanto dessa “força viva” existente na Criação, em direção à referida intuição, quanto seja a sua capacidade de recepção, condicionada pela respectiva força da intuição. Somente com isso a intuição humana, isto é, “espiritualizada”, vivifica-se e recebe a enorme capacidade geradora (não força criadora) no mundo de matéria fina, que torna o ser humano senhor entre todas as criaturas, a criatura suprema na Criação. Esse fenômeno, contudo, deixa-o exercer também imensa influência sobre toda a Criação posterior,acarretando com isso... responsabilidade pessoal, que criatura alguma além dele na Criação posterior pode ter, uma vez que somente o ser humano possui a faculdade determinante para tanto, a qual reside na constituição do espírito.
E somente ele, em toda a Criação posterior, contém espírito em seu âmago mais íntimo e obtém por isso, como tal, exclusivamente também, ligação com a força viva superior que reside na Criação posterior. Por sua vez, os primordialmente criados no Paraíso são de espírito diferente do que os que peregrinam pelos mundos, os assim chamados seres humanos terrenos, razão por que sua faculdade de ligação se destina também a uma onda de força diferente, mais elevada e ainda muito mais forte, da qual se utilizam conscientemente, podendo criar assim de modo natural também coisas muito diferentes do que os peregrinadores do mundo, aos quais pertencem os seres humanos terrenos, cuja onda de força superior é apenas uma gradação da energia latente na Criação primordial, da mesma forma que os próprios seres humanos terrenos são apenas uma gradação dos primordialmente criados.
O que até hoje tem faltado principalmente ao saber humano é o conhecimento das muitas gradações de tudo aquilo que se encontra na Criação primordial, que se tornam cada vez mais fracas em direção descendente, e o reconhecimento de que eles próprios pertencem apenas a essas gradações. Estando tal compreensão corretamente consolidada, a presunção de até agora cairá, ficando livre dessa forma o caminho para a escalada.
Ruirá então por si, miseravelmente, a tola ilusão de serem os supremos, de trazerem dentro de si até mesmo algo de divinal e, por fim, restará apenas vergonha libertadora. Os primordialmente criados, tão mais superiores e mais valiosos, não possuem tal presunção. Apenas sorriem complacentemente dos desencaminhados vermes terrenos, tal qual sorriem muitos pais da tagarelice imaginosa de seus filhos.
Mas, voltando à intuição. A intuição de uma pessoa, assim fortalecida, produz agora, em ulterior gradação absolutamente automática, uma configuração que corporifica exatamente a espécie da intuição! Nesse caso, pois, a inveja. De início, a configuração acha-se dentro, a seguir ao lado do gerador, ligada a este por um cordão nutridor. Concomitantemente, porém, sob o efeito da lei de atração da igual espécie, entra ela logo em contato com o local de concentração das configurações de espécies iguais, recebendo de lá vigoroso reforço, que, juntamente com a nova configuração, constitui agora o ambiente de matéria fina da respectiva pessoa.
Nesse ínterim, a intuição chega até o cérebro, e aí desperta pensamentos de igual espécie, que delineiam nitidamente o alvo. Assim, os pensamentos tornam-se canais ou vias por onde as configurações seguem na direção de um bem determinado alvo, a fim de ali causar danos, se encontrarem solo para tanto. A pessoa visada como alvo, tendo em si apenas solo puro, portanto vontade pura, não oferece a essas configurações nenhuma área de agressão, nenhuma base de ancoragem. Nem por isso elas se tornam acaso novamente inofensivas, mas sim continuam a vagar isoladamente ou juntam-se com as espécies iguais em seus locais de aglomeração que podem ser chamados de “planícies”, visto estarem sujeitas à lei de sua gravidade espiritual e, por isso, têm de formar determinadas planícies, as quais sempre apenas podem admitir e prender espécies iguais. Continuam dessa maneira categoricamente perigosas, porém, para todos aqueles espíritos humanos que não trazem em si suficiente pureza na forte vontade para o bem, acabando por trazer também destruição a seus geradores, uma vez que sempre permanecem em ligação com os mesmos, permitindo refluir pelo cordão nutridor, continuamente, novas energias de inveja, que as próprias configurações recebem da aglomeração das centrais. Por isso não é tão fácil a tal gerador reentregar-se a intuições mais puras, porque fica fortemente tolhido devido ao refluxo das energias de inveja. É continuamente arrancado disso. É forçado a reunir muito mais energias para escalada, do que um espírito humano que não esteja de tal modo tolhido. E somente mediante uma constante vontade pura, fenece, pouco a pouco, um cordão nutridor do mal, até que por fim, secando, caia sem forças. Eis a libertação do gerador de tal mal, pressupondo-se que a sua configuração não tenha até aí causado dano, pois então entrarão logo novas ligações em vigor, as quais também querem ser resgatadas.
Para uma dissolução de tais fios, necessário é um novo encontro no Aquém ou no Além com as pessoas prejudicadas por esse mal, até que aí surjam o reconhecimento e o perdão. Em conseqüência disso, a escalada do gerador de tais configurações não poderá preceder a escalada daqueles que foram assim atingidos. Os fios de ligação ou do destino retêm-no, enquanto não ocorrer uma dissolução pela reparação e pelo perdão.
Mas isso ainda não é tudo! Essa vontade intuitiva tem, sob o reforço da “força” viva, um efeito ainda muito maior, pois não somente povoa o mundo de matéria fina, mas também dirige os destinos de toda a Criação posterior, à qual pertence a Terra e todos os astros circunvizinhos! Interfere, portanto, também na matéria grosseira. De modo construtivo ou destrutivo! A tal respeito devia o ser humano finalmente reconhecer quantos disparates já cometeu, em vez de cumprir seus deveres oriundos das faculdades de seu espírito, para bênção desta Criação posterior e de todas as criaturas. Muitas vezes o ser humano pergunta por que a luta se manifesta na natureza e, no entanto, o enteal se orienta na Criação posterior... segundo a maneira das criaturas humanas! Com exceção dos enteais primordialmente criados. – Mas prossigamos:
Os produtos da vontade intuitiva do espírito humano, as configurações antes mencionadas, não deixam de existir depois que se desprendem de quem as gerou, mas continuam existindo de maneira autônoma, enquanto forem recebendo nutrição dos espíritos humanos que têm a mesma espécie delas! Não é necessário que seja seu próprio gerador. Procuram ensejo para agarrar-se a este ou àquele ser humano disposto a tanto ou também a seres humanos fracos para uma defesa. No mau sentido, são elas os demônios, oriundos da inveja, do ódio e de tudo quanto é similar. No bom sentido, porém, são entes benfazejos, que pacificam com amor e favorecem a ascensão.
Em todos esses fenômenos não é necessária absolutamente uma ação terrenalmente visível das pessoas; ela adiciona somente novas cadeias ou fios que terão de ser resgatados no plano da matéria grosseira, tornando indispensável uma reencarnação, se a remissão não puder se realizar numa só vida terrena.
Essas configurações da vontade intuitiva do ser humano contêm em si força, porque se originam da vontade espiritual em ligação com a “força principal neutra” e, o que é o mais importante, porque com isso, ao serem formadas, recebem em si algo do enteal,isto é, aquela espécie donde se desenvolvem os gnomos, etc. A vontade de um animal não pode realizar isso, porque a alma do animal nada tem de espiritual em si, mas apenas de enteal. É, portanto, um fenômeno que somente se realiza nas configurações da vontade intuitiva humana, que por isso tem de trazer grande bênção no caso de vontade boa, mas incalculável desgraça mediante vontade má, porque um núcleo enteal de tais configurações possui força impulsionadora própria, ligada à capacidade influenciadora sobre tudo o que é de matéria grosseira. E, com isso, a responsabilidade do espírito humano aumenta enormemente. Sua vontade intuitiva cria, de acordo com sua espécie, os entes de vontade boa, bem como os demônios vivos.
Ambos são exclusivamente produtos da capacidade do espírito humano na Criação posterior. Contudo, o seu núcleo automaticamente impulsionador, e com isso incalculável em sua ação, não se origina da entealidade com capacidade de vontade,donde provêm as almas dos animais, mas duma gradação inferior disso, que não possui capacidade de vontade própria. Existem também na entealidade, assim como no setor do espírito situado acima dela, muitas gradações e espécies determinadas, a cujo respeito ainda devo falar em especial.*(Dissertação Nº 49: A diferença na origem entre o ser humano e o animal)
Para esclarecimento adicional sirva ainda que o enteal também encontra contato com uma força viva, latente na Criação, que, contudo, não é a mesma a que a vontade do espírito humano está ligada, mas somente uma gradação daquela.
Exatamente as variadas possibilidades e impossibilidades de ligação são os mais severos guardas da ordem na Criação posterior, resultando em firme e inamovível divisão em todo o formar e decompor.
Tão longe, portanto, alcança a atuação do espírito humano. A tal respeito observai hoje os seres humanos atentamente e podereis imaginar quanta desgraça já causaram. Principalmente quando aí se considerarem as ulteriores conseqüências da atividade dessas configurações vivas, que são soltas, sim, sobre todas as criaturas! É, pois, como a pedra que atirada pela mão, fica fora do controle e da vontade de quem a arremessou.
Ao lado dessas configurações, para cuja descrição da extensa atividade e influência seria necessário um livro inteiro, existe uma outra espécie que se acha em íntima ligação com essas, mas que constitui uma seção mais fraca. Apesar disso, é ainda bastante perigosa para molestar muitas pessoas, obstá-las e até levá-las ao soçobro. São as configurações dos pensamentos, isto é, as formas de pensamentos, os fantasmas.
A vontade mental, portanto o produto do cérebro terreno, ao contrário da vontade intuitiva, não possui a capacidade de entrar em ligação imediata com a força principal e neutra existente na Criação. Por isso falta a tais formas o núcleo autônomo das configurações da intuição, as quais podemos chamar de “sombras anímicas enteais”. As formas de pensamentos permanecem categoricamente dependentes de seu gerador, com o qual estão ligadas de maneira semelhante às configurações da vontade intuitiva. Portanto, mediante um cordão nutridor que forma simultaneamente a via para os efeitos de retorno da reciprocidade. Sobre essa espécie, porém, já falei uma vez minuciosamente na dissertação “Formas de Pensamentos”.*(Dissertação Nº 22) Por isso, posso poupar nesse ponto uma repetição.
As formas de pensamentos são, em relação à lei da reciprocidade, o degrau mais fraco. Ainda assim influenciam de forma bastante desastrosa, podendo ocasionar não só a destruição de espíritos humanos isolados, mas até de grandes massas, bem como contribuir para a devastação de partes inteiras do Universo, tão logo sejam excessivamente nutridas e cultivadas pelas criaturas humanas, recebendo assim um poder inimaginado, conforme tem ocorrido nos últimos milênios.
Assim, todo o mal se originou somente através dos próprios seres humanos. Através de sua incontrolada e errada vontade intuitiva e mental, bem como através de sua leviandade nisso! —
Esses dois domínios, o reino das configurações da vontade intuitiva humana e o reino das formas da vontade mental humana, onde, naturalmente, também espíritos humanos são obrigados a viver, constituíam o campo exclusivo de trabalho e de visão dos maiores “magos” e “mestres” de todos os tempos, que aí se enredam e finalmente, por ocasião do trespasse, também aí ficam detidos. E hoje?
Os “grandes mestres do ocultismo”, os “iluminados” de tantas seitas e lojas... não estão melhor! Mestres, são eles apenas nesses reinos. Vivem entre suas próprias configurações. Somente ali podem ser “mestres”, não porém na vida propriamente do Além! Tão longe nunca vai o poder e a maestria deles.
Criaturas humanas dignas de lástima, não importando se professam a magia negra ou a branca, conforme seja a espécie da vontade, má ou boa... julgavam-se e julgam-se poderosas na força do espírito, quando na verdade são menos do que uma pessoa ignorante a tal respeito. Esta, com sua simplicidade infantil, encontra-se bem acima dos campos de atuação já por si inferiores de tais “ignorantes” príncipes do espírito, portanto mais elevada no espírito do que estes.
Tudo seria muito bom, se os efeitos da atuação de tais sumidades pudessem recair retroativamente apenas sobre eles próprios, mas tais “mestres”, com seus esforços e atividades, deixam mais movimentadas as camadas inferiores, por si próprias insignificantes, e sem necessidade agitam-nas, fortalecendo-as assim a ponto de torná-las perigosas para todos os fracos na defesa. Para outros ficam felizmente inócuas, porque um espírito humano ingênuo, que se alegra com sua existência de maneira infantil, eleva-se sem mais nem menos acima dessas camadas inferiores, nas quais os sabichões chafurdam, acabando por ficar ali presos pelas formas e configurações fortalecidas por eles próprios. Por mais sério que isso deva ser considerado, ao ser visto de cima, apresenta-se indizivelmente ridículo e triste, indigno do espírito humano. Pois inflados por falsa presunção e enfeitados de quinquilharias rastejam e formigam ativamente em redor, a fim de insuflar vida a tal reino. Um reino de sombras no mais verdadeiro sentido, um mundo inteiro de aparências, que se torna capaz de mostrar ilusoriamente todo o possível e o impossível. E aquele que o evocou primeiro, por fim não poderá novamente bani-lo, terá de sucumbir! Muitos, pois, perscrutam com afinco, para lá e para cá nessas camadas inferiores, supondo com orgulho que altura colossal alcançaram dessa maneira. Um espírito humano, claro e singelo, no entanto, pode passar descuidadamente, sem mais nem menos, por essas camadas inferiores, sem ter de aí se deter de algum modo.
O que devo ainda dizer sobre tais “sumidades”? Nem um sequer daria ouvidos a isso, uma vez que no seu reino de aparência podem por certo lapso de tempo aparentar o que na verdadeira existência do espírito vivo jamais conseguiriam ser, pois lá está determinado para eles: “servir”. Então o querer ser mestre cessa rapidamente. Por esse motivo lutam contra isso, visto que muito lhes será tomado pela verdade! Falta a coragem para suportar isso. Quem deixaria cair de bom grado toda a estruturação de sua imaginação e de suas vaidades? Teria de ser de fato uma pessoa direita e realmente grande! E essa não teria caído em tais ciladas da vaidade.
Só uma coisa aí é entristecedora: quantas, ou melhor dito, quão poucas pessoas são tão esclarecidas e firmes em si, quão poucas ainda dispõem de tão infantil e alegre ingenuidade, a fim de poderem transpor ilesas esses planos, levianamente criados e continuamente fortalecidos pela vontade dos seres humanos. Para todas as demais, porém, será conjurado com isso um perigo que só aumenta constantemente.
Se os seres humanos, finalmente, pudessem se tornar realmente videntes nisso! Quanta desgraça poderia ser evitada. Através de uma intuição mais pura, do pensar puro de cada ser humano, todos os planos sombrios e escuros do Além teriam de ficar logo tão enfraquecidos, que até se ofereceria uma libertação mais rápida aos espíritos humanos ali retidos em luta, porque poderiam livrar-se mais facilmente do ambiente tornado mais fraco. —
Exatamente como tantos grandes “mestres” aqui na Terra, também no Além espíritos humanos vivenciam tudo como sendo inteiramente legítimo nos diversos ambientes, formas e configurações, quer seja nas regiões sombrias e inferiores, quer nas de matéria fina, já mais altas, mais agradáveis... o medo bem como a alegria, o desespero bem como a salvação libertadora... e, todavia, nem aí se encontram no reino da verdadeira vida, mas a única coisa realmente viva aí são apenas eles próprios! Tudo o mais, seu bem variado e mutável ambiente, só pode existir através deles mesmos e de seus semelhantes aqui na Terra.
Até o próprio inferno é apenas produto dos espíritos humanos, existindo com efeito e trazendo em si também sério perigo, desencadeando sofrimentos medonhos, e, todavia, dependente de modo exclusivo da vontade de todos aqueles seres humanos, cujas intuições conduzem para o inferno, para a sua manutenção, força da neutra força de Deus, a qual se encontra na Criação para utilização dos espíritos humanos. Portanto, o inferno não é instituição alguma de Deus, mas uma obra das criaturas humanas!
Quem reconhece isso direito, aproveitando conscientemente esse reconhecimento, ajudará a muitos; outrossim, ele próprio escalará mais facilmente para a Luz, onde unicamente se encontra toda a verdadeira vida.
Se pelo menos uma vez ainda os seres humanos se abrissem a ponto de se tornarem aptos a pressentir que tesouro está à sua disposição na Criação! Um tesouro que deve ser encontrado e erguido pelo espírito humano individualmente, isto é, que deve ser utilizado conscientemente: a força neutra principal tantas vezes por mim mencionada. Ela não conhece a distinção entre o bem e o mal, mas sim se encontra fora de tais conceitos, é simplesmente “força viva”.
Cada vontade intuitiva de uma pessoa age como chave desse tesouro, estabelece contato com essa força sublime. Tanto a vontade boa como a vontade má. Ambas são reforçadas e avivadas pela “força”, porque esta reage imediatamente sob a vontade intuitiva do espírito humano. E somente sob esta; nada além disso. O modo de ser da vontade é determinado pelo ser humano, está exclusivamente em suas mãos. A força não conduz nem o que é bom, nem o que é mau, mas simplesmente é “força” e vivifica o que o ser humano quis.
Importante é saber aqui, contudo, que o ser humano não traz em si mesmo essa força vivificadora, mas possui apenas a chave para isso, na capacidade de suas intuições. É, portanto, administrador dessa força criadora e formadora, que age de acordo com a sua vontade. Por esse motivo tem de prestar contas da atividade administrativa que exerce a cada hora. No entanto, qual criança ignorante, brinca de modo inconsciente com o fogo, ocasionando por isso, igual a ela, grandes danos. Não tem necessidade, porém, de ser ignorante! Esse é o seu erro! Todos os profetas e por último o Filho de Deus esforçaram-se em dar clareza a esse ponto mediante parábolas e ensinamentos, em mostrar o caminho que as criaturas humanas devem seguir, de que maneira devem intuir, pensar e agir, a fim de prosseguir de modo certo!
Foi, porém, em vão. Com esse poder incomensurável a eles confiado, os seres humanos continuaram brincando segundo seu próprio parecer, sem ouvir as advertências e conselhos da Luz, trazendo assim por fim o desmoronamento e a destruição de suas obras e também de si próprios, pois essa força atua de modo inteiramente neutro, fortalece tanto a boa como a má vontade de um espírito humano, mas devido a isso destrói também a viatura e o condutor, de modo frio e sem hesitar, como automóveis guiados erradamente. Essa imagem é certamente bastante clara enfim. Mediante a vontade e os pensamentos, os seres humanos dirigem os destinos de toda a Criação posterior, bem como os deles mesmos, e nada sabem disso. Favorecem o florescer ou o fenecer, podem alcançar soerguimento na maior harmonia ou também aquela confusão caótica que atualmente se dá! Ao invés de construir sensatamente, malbaratam desnecessariamente o tempo e a energia com tantas vaidosas futilidades. Sensatos chamam a isso castigo e julgamento, o que em certo sentido está correto, e, todavia, foram os próprios seres humanos que forçaram tudo quanto agora acontece.
Houve já muitas vezes pensadores e observadores que pressentiram tudo isso, mas equivocaram-se na errônea suposição de que esse poder do espírito humano se manifestasse como um sinal da própria divindade. Isso é um erro, resultante apenas de observação externa e unilateral. O espírito humano nem é Deus nem divino. Esses tais, que pretendem ser sábios, só vêem o aspecto externo dos fenômenos, mas não o núcleo. Nos efeitos, confundem a causa. E, lamentavelmente, originaram-se dessa insuficiência muitas doutrinas errôneas e presunções. Por isso, mais uma vez acentuo: a força de Deus que perflui permanentemente a Criação e que nela reside é apenas emprestada a todos os espíritos humanos. Eles podem dirigi-la, ao utilizar-se dela, mas não a contêm em si, ela não lhes pertence! Tal força pertence apenas ao divinal. Este aplica-a, no entanto, somente para o bem, porque o divinal nem conhece as trevas. Os espíritos humanos, porém, aos quais ela é emprestada, criaram com isso para si um covil de assassinos!
Por isso mais uma vez clamo insistentemente a todos: conservai puro o foco da vontade e de vossos pensamentos, com isso estabelecereis a paz e sereis felizes! Desse modo a Criação posterior, finalmente, ainda se assemelhará à Criação primordial, na qual reinam apenas Luz e alegria. Tudo isso está nas mãos dos seres humanos, na capacidade de cada espírito humano autoconsciente, que não mais permanecer estranho nesta Criação posterior! — —
Muitos dos meus ouvintes e leitores, intimamente, desejarão que eu ainda junte aos esclarecimentos alguma imagem condizente com tal fenômeno, proporcionando um panorama vivo para melhor compreensão. A outros, por sua vez, isso estorvará. Pode haver também os que digam a si mesmos que eu com isso enfraqueço a seriedade do que foi dito, porque a reprodução de um fenômeno vivo nesses planos facilmente pode ser considerada como fantasia ou visão. Algo semelhante até já tive de ouvir quando publiquei minhas dissertações: “O Santo Graal” e “Lúcifer”. Todavia, as pessoas que investigam a fundo e que não têm os ouvidos espirituais fechados, intuirão aí por que isso é dito por mim. A essas, unicamente, destina-se também a imagem que quero dar a respeito, pois saberão que não é fantasia nem visão, mas sim muito mais.
Tomemos, pois, um exemplo: uma mãe pôs fim à vida, pelo afogamento, arrastando consigo à morte terrena seu filho de dois anos. Ao acordar no Além, ela encontra-se afundando em águas lôbregas, lamacentas, pois o último e terrível momento da alma tornou-se vivo na matéria fina. É o lugar onde todas as espécies iguais sofrem a mesma coisa junto com ela, em contínuo tormento. Conserva nos braços o seu filho, que a ela se apega com angústia mortal, mesmo que no ato terrenal ela o tenha lançado antes às águas. Esses terríveis momentos ela terá de vivenciar durante um período menor ou maior, de acordo com a sua constituição anímica; deverá ficar, portanto, afogando-se permanentemente, sem que aí chegue a um fim, sem perder a consciência. Pode durar decênios ou ainda mais, até que desperte em sua alma o legítimo grito de socorro, baseado em pura humildade. Isso não ocorre com facilidade, pois em seu redor somente existe espécie igual, mas nenhuma Luz. Ouve apenas maldições horrendas e imprecações, palavras grosseiras; vê somente brutal falta de consideração.
Com o tempo, então, talvez lhe irrompa primeiro o impulso de pelo menos proteger o filho daquilo, ou de tirá-lo daquele ambiente medonho e do perigo e tormento contínuos. Angustiada, ela o mantém, por isso, na fatalidade do próprio afundar, acima da superfície fétida e viscosa, enquanto muitas outras figuras ao seu redor, agarrando-se a ela, procuram arrastá-la consigo às profundezas.
Essas águas pesadas como chumbo são os pensamentos vivificados na matéria fina, mas ainda sem contornos nítidos, dos suicidas por afogamento, bem como de todos aqueles que ainda se encontram na Terra e se ocupam com pensamentos semelhantes. Estes têm ligação entre si e, atraindo-se de modo recíproco, conduzem mutuamente sempre novos reforços, com o que os tormentos se renovam infinitamente. Tais águas haveriam de secar, se ao invés desses afluxos de igual espécie afluíssem da Terra ondas de pensamentos refrescantes, alegres e que encerrassem alegria de viver.
A preocupação, pois, pela criança, a qual o instinto maternal permite com o tempo chegar a um amor dedicado e cuidadoso, recebe força bastante a fim de formar o primeiro degrau da escada de salvamento para a mãe, que a conduz para fora desse tormento que ela mesma criou para si, mediante tal fim prematuro de sua existência terrena. Ao mesmo tempo que deseja resguardar a criança do tormento para o qual ela própria a arrastou, nutre algo de mais nobre em si, o que por fim conseguirá levá-la para um outro ambiente, não tão lúgubre.
A criança em seus braços não é, na realidade, a alma viva do filho que ela arrastou consigo às águas, matando-o. Tal injustiça não pode ocorrer. Na maioria dos casos, a alma viva da criança brinca em paragens ensolaradas, ao passo que a criança nos braços da mãe em luta é apenas... um fantasma, uma configuração viva da intuição da assassina e também... da criança! Pode ser uma configuração de culpa, originada, portanto, sob a pressão da consciência de culpabilidade, ou uma configuração do desespero, do ódio, do amor, não importa, a mãe supõe que seja o próprio filho vivo, porque a configuração se assemelha perfeitamente à criança e assim também se move, chora, etc. Não quero entrar em tais pormenores nem nas muitas variações.
Inúmeros fenômenos poderiam ser descritos, cujas espécies sempre se encontram ligadas exatamente às ações precedentes.
Uma coisa, porém, ainda quero citar como exemplo, de que modo ocorre a transição do Aquém para o Além.
Admitamos que uma senhora ou uma moça tenha ficado involuntariamente em condições de vir a ser mãe e que, conforme infelizmente sucede mui freqüentemente, tenha providenciado algo contra isso. Mesmo que tudo haja ocorrido, em casos especialmente favoráveis, sem prejuízos corpóreos, no entanto, com isso o ato não está concomitantemente remido. O mundo de matéria fina, como ambiente depois da morte terrena, registra de modo exato e ininfluenciável. Desde o momento em que isso ocorreu, apegou-se ao pescoço de matéria fina da mãe desnaturada o corpo de matéria fina da criança em formação, para não sair desse lugar até que o ato seja remido. Evidentemente a respectiva moça ou senhora não notará, enquanto viver na Terra, no corpo de matéria grosseira. No máximo sentirá, como efeito, uma vez ou outra, certa sensação levemente angustiante, porque o pequeno corpo de matéria fina da criança em relação ao corpo de matéria grosseira tem a leveza duma pluma, e a maioria das jovens, hoje, é demasiadamente embotada para sentir esse pequeno fardo. Esse embotamento, contudo, não constitui nenhum progresso, tampouco um sinal de saúde robusta, pelo contrário, significa retrocesso, o sinal de estar enterrada animicamente.
No momento da morte terrena, porém, o peso e a densidade do pequeno corpo infantil aderente tornam-se iguais aos do corpo de matéria fina da mãe ao sair do corpo terreno, e com isso um autêntico fardo. Causará ao corpo de matéria fina da mãe, imediatamente, os mesmos incômodos como na Terra o agarrar-se de um corpo infantil de matéria grosseira ao seu pescoço. Conforme a natureza dos fatos anteriores, isso pode crescer até um tormento asfixiante. Terá a mãe de carregar no Além esse corpo infantil e dele não ficará livre até que nela desperte o amor materno, procurando então, de modo cuidadoso, proporcionar ao corpo infantil todas as facilidades e cuidados, penosamente e com sacrifício da própria comodidade. Até lá, porém, muitas vezes há um caminho longo, cheio de espinhos!
Esses acontecimentos não deixam de ter naturalmente também uma certa alegria triste. Basta apenas imaginar qualquer pessoa, para a qual tenha sido retirada a parede separadora entre o Aquém e o Além, entrando numa família ou reunião social. Ali talvez se encontrem senhoras em animada conversa. Uma das senhoras ou “donzelas” emite durante a conversa juízos reprovadores sobre os seus semelhantes, com revolta moral, enquanto que justamente no pescoço daquela tão revoltada ou orgulhosa, a visita vê pendurado um ou até vários pequenos corpos infantis. E não somente isso, mas em cada uma das demais pessoas pendem as obras de sua verdadeira vontade, nitidamente visíveis, que freqüentemente se encontram em oposição, a mais grotesca, com as suas palavras e com aquilo que ela gostaria de aparentar e que também procura representar perante o mundo.
Quanto juiz há, muito mais sobrecarregado de culpa do que o réu por ele condenado e diante do qual está sentado. Quão céleres passarão os poucos anos terrenos, quando ele estará diante do seu juiz, perante o qual valem outras leis. E o que, então?
Infelizmente, na maioria dos casos, o ser humano consegue enganar o mundo de matéria grosseira de modo fácil; isso, no entanto, fica excluído no mundo de matéria fina. Lá, felizmente, o ser humano terá de colher realmente aquilo que semeou. Por isso ninguém precisa se desesperar se, apesar de tudo, o mal mantiver passageiramente o predomínio aqui na Terra. Nem sequer um único pensamento mau permanecerá inexpiado, mesmo que não se tenha concretizado numa ação de matéria grosseira.