Eu indico mais uma vez que toda a vida na Criação consiste de duas espécies. A autoconsciente e a inconsciente. O consciente é o progresso de todo o inconsciente. Somente ao tornar-se consciente forma-se também a imagem do Criador, que compreendemos como sendo a forma humana. O amoldamento processa-se uniforme e concomitantemente com a conscientização.
Na primeira Criação propriamente, então, que por estar mais próxima do Espírito criador, também só pode ser espiritual, encontra-se ao lado do consciente ser humano espiritual, criado por primeiro, também o espiritual ainda inconsciente. Nesse inconsciente, com as mesmas propriedades do consciente, reside naturalmente o impulso para o desenvolvimento progressivo. Este só se pode dar, porém, pelo aumento progressivo da autoconscientização.
Quando, portanto, no espírito inconsciente esse impulso para a conscientização tiver aumentado até certo grau, dar-se-á um fenômeno no desenvolvimento mais natural, que equivale a um nascimento terreno. Precisamos apenas prestar atenção ao nosso ambiente. Aqui, o corpo de matéria grosseira expele automaticamente cada fruto amadurecido. No animal e na criatura humana. Também cada árvore expele seus frutos. O fenômeno é a repetição de um desenvolvimento progressivo, cujos fundamentos se acham na primeira Criação, no assim denominado Paraíso.
De igual modo sucede também lá, num determinado amadurecimento do inconsciente que anseia pela conscientização, um repelimento automático, uma separação, também denominada expulsão, da outra parte do inconsciente. Essas partículas espirituais inconscientes, assim expelidas, formam então os germes espirituais de futuros seres humanos!
Este é o acontecimento da expulsão do Paraíso, que também foi reproduzido em imagem na Bíblia.
Esse fenômeno tem de acontecer, porque no inconsciente se encontra a irresponsabilidade, ao passo que com a conscientização amadurece concomitantemente a responsabilidade.
A separação do inconsciente em amadurecimento é, portanto, indispensável para o espiritual, que por impulso natural quer desenvolver-se para o consciente. É um progresso, nenhum retrocesso!
Como esses germes vivos não podem ser expelidos para cima, para a perfeição, resta-lhes então o único caminho para baixo. Mas aí penetram no reino do enteal de mais peso, o qual nada contém de espiritual.
Assim, o germe espiritual que anseia pela conscientização fica de súbito num ambiente a ele heterogêneo, portanto estranho, e com isso praticamente descoberto. Como espírito ele se sente descoberto e nu na entealidade mais densa. Se quiser permanecer aí ou prosseguir, torna-se-lhe uma necessidade natural cobrir-se com um invólucro enteal, que tenha a mesma espécie do seu ambiente. De outra maneira não consegue agir aí, tampouco se manter. Portanto, não sente apenas a necessidade de cobrir sua nudez no caminho para o reconhecimento, conforme figuradamente a Bíblia descreve, mas também se trata aqui de um processo evolutivo indispensável.
O germe do espírito humano em desenvolvimento é, pois, conduzido progressivamente à matéria, por caminhos naturais.
E aqui então o envolve mais uma vez um necessário invólucro, da mesma estruturação do seu novo âmbito material.
Encontra-se ele então na orla extrema da matéria fina.
Mas a Terra é aquele ponto de matéria grosseira onde se reúne tudo quanto existe na Criação. Confluem aqui todos os setores, os quais de outro modo se achariam categoricamente separados, devido às suas características específicas. Todos os fios, todos os caminhos convergem para a Terra, como que se concentrando num ponto de encontro. Ligando-se aqui e gerando também novos efeitos, são arremessadas para o Universo correntes de energia em poderosas chamas! De tal modo, como de nenhum outro lugar da matéria.
Sobre esta Terra processa-se o mais intenso vivenciar através da conglomeração de todas as espécies da Criação, para o que a materialidade contribui. No entanto, pode ser sempre somente através da conglomeração de todas as espécies da Criação, nada de divinal, nada do Espírito Santo, que pairam acima e fora da Criação.—
As últimas manifestações desse vivenciar na Terra afluem, pois, ao encontro do germe espiritual, tão logo ele entre na matéria fina. É envolto por esses efeitos. São eles que o atraem, ajudando-o porém a despertar com isso sua conscientização, e levá-lo ao desenvolvimento.
Sem ligação ainda, portanto sem culpa, nesse limiar de toda a matéria, ele intui as manifestações das vibrações de fortes experiências vivenciais, que se desenrolam na evolução e na decomposição de tudo quanto é material. Aí lhe advém então o anseio dum melhor conhecimento. Mas tão logo forme nisso um desejo, sintoniza-se voluntariamente, ao formular esse desejo, com qualquer vibração, seja ela boa ou má. E, imediatamente, devido à atuante lei da força de atração da igual espécie, será atraído por uma espécie igual, que é mais forte do que a sua. É impelido para um ponto onde a espécie almejada é venerada de modo mais veemente do que era seu próprio desejo.
Com tal anseio íntimo, o seu invólucro de matéria fina condensa-se logo de modo correspondente a esse anseio, e a lei da gravidade o deixa afundar ainda mais.
O verdadeiro vivenciar, porém, do anseio nele latente, só lhe oferece por fim a Terra de matéria grosseira! — —
Sente-se, por isso, impelido a prosseguir até o nascimento terreno, porque quer passar do petiscar ao provar e saborear. Quanto mais intensos se tornam os desejos pelos prazeres terrenos do espírito que desperta no petiscar, tanto mais espesso se forma também o invólucro de matéria fina que traz consigo. Com isso vai adquirindo também mais peso e afunda vagarosamente em direção ao plano terrestre, onde unicamente se acha a oportunidade para a realização dos desejos. Uma vez chegado até esse plano terrestre, tornou-se com isso também amadurecido para o nascimento terreno.
Nisso, a lei da força de atração da igual espécie manifesta-se mais nitidamente ainda. Cada um dos espíritos imaturos é atraído como que magneticamente, exatamente de acordo com o desejo ou pendor que traz em si, por um ponto onde o conteúdo do seu desejo chega à realização através de seres humanos terrenos. Se tiver, por exemplo, o desejo de dominar, não nascerá acaso num ambiente onde ele próprio então possa viver na realização de seu desejo; ao contrário, será atraído por uma pessoa com acentuada tendência para dominar, que, portanto, intui como ele, e assim por diante. Expia dessa forma o errado, em parte, ou acha a felicidade no certo. Pelo menos tem ensejo para tanto.
Devido a esse fenômeno supõe-se, pois, erroneamente, transmissão hereditária de propriedades ou de faculdades espirituais! Isso é errado! Externamente, contudo, pode aparentar assim. Na realidade, porém, uma criatura humana não pode transmitir aos filhos nada de seu espírito vivo.
Não existe nenhuma hereditariedade espiritual!
Pessoa alguma se encontra em condições de ceder sequer uma reduzidíssima partícula de seu espírito vivo!
Nesse ponto criou-se um erro que lança suas sombras estorvantes e perturbadoras sobre muita coisa. Nenhum filho pode ser grato aos pais por qualquer faculdade espiritual, tampouco censurá-los por defeitos! Seria errôneo e uma injustiça condenável!
Jamais esta maravilhosa obra da Criação seria tão falha e imperfeita, a ponto de permitir atos arbitrários ou casuais de hereditariedade espiritual!
Essa força de atração de todas as espécies iguais, tão importante no nascimento, pode partir do pai, bem como da mãe, assim como de cada um que esteja na proximidade da futura mãe. Por isso uma futura mãe devia ser cautelosa em relação àqueles que ela permite ficar em sua proximidade. Cumpre ponderar aí que a força interior reside predominantemente nas fraquezas, e não acaso no caráter exterior. As fraquezas trazem etapas importantes de vivenciar interior, que resultam em vigorosa força de atração.
A vinda terrena do ser humano compõe-se, pois, de geração, encarnação e nascimento. A encarnação, isto é, a entrada da alma, ocorre no meio do período da gravidez. O crescente e mútuo estado de maturação, tanto da futura mãe, como da alma em vias de encarnação, conduz a uma especial ligação ainda mais terrena. Essa é uma irradiação provocada pelo mútuo estado de maturação, e por fenômeno natural buscam-se reciprocamente de modo irresistível. Tal irradiação se vai tornando cada vez mais intensa, prendendo uma à outra, a alma e a futura mãe, cada vez mais forte e de maneira exigente, até que por fim a alma é literalmente absorvida pelo corpo em desenvolvimento no ventre materno.
Esse momento de ingresso ou de absorção acarreta também, naturalmente, os primeiros abalos do pequeno corpo, o que se manifesta por contrações que são chamadas os primeiros movimentos da criança. Com isso se processa na futura mãe, muitas vezes, uma transformação de suas intuições. De modo bem-aventurado ou opressor, conforme a espécie da alma humana que ingressa. —
A alma humana, até tal ponto desenvolvida, veste com o pequeno corpo o manto de matéria grosseira, que é necessário a fim de experimentar vivencialmente tudo, de modo pleno, na matéria grosseira terrena, ouvir, ver e sentir, o que só se torna possível através dum invólucro ou dum instrumento da mesma matéria, da mesma espécie. Só então poderá passar do petiscar para o saborear propriamente e, com isso, para o discernimento. É compreensível que a alma tenha de aprender primeiro a servir-se desse novo corpo como instrumento, e a dominá-lo.
Eis resumidamente o processo evolutivo do ser humano até o seu primeiro nascimento terreno.
Pois já desde muito tempo, por fenômeno natural, alma alguma não mais pode vir à Terra para a primeira encarnação; pelo contrário, os nascimentos trouxeram almas que já haviam passado no mínimo por uma vida terrena. Por isso, já no nascimento se encontram estreitamente enlaçadas por variadíssimo carma. A força sexual propicia a possibilidade de se libertarem disso.
Devido ao encobrimento pelo corpo de matéria grosseira, a alma de um ser humano fica isolada, durante todos os anos da infância, dos influxos que do lado de fora procuram alcançar a alma. Todas as trevas, o mal, que movimentam o plano terrestre, encontram seu caminho impedido pelo corpo terreno de matéria grosseira. Não podem por isso obter nenhuma influência sobre a criança, não podem causar-lhe nenhum dano. O mal, porém, que a alma novamente encarnada trouxe consigo do vivenciar anterior, se mantém para ela naturalmente de idêntico modo durante a infância.
O corpo constitui esse anteparo, enquanto se achar ainda incompleto e imaturo. É como se a alma tivesse se retirado para um castelo, estando a ponte levadiça erguida. Assim, durante esses anos, permanece uma separação intransponível entre a alma infantil e a Criação de matéria fina, onde vivem as vibrações de matéria fina de culpa e de redenção. Fica assim a alma abrigada nesse invólucro terreno, amadurecendo para a responsabilidade e aguardando, para a verdadeira vida na matéria, o momento da descida da ponte levadiça erguida.
O Criador inculcou através das leis naturais o instinto imitativo em cada criatura, em lugar dum livre-arbítrio, onde ainda nenhum livre-arbítrio atua. Denomina-se isso em geral de “receptibilidade infanto-juvenil”. O instinto de imitação deve preparar o desenvolvimento para a vida terrena, até que, nos animais, seja enriquecido e amparado por experiências, mas nos seres humanos, soerguido para o atuar autoconsciente através do espírito, no livre-arbítrio!
Falta, pois, ao espírito encarnado no corpo da criança, uma ponte de irradiação que só poderá formar-se na época da maturação corpórea, pela força sexual. Essa ponte falta ao espírito para uma atuação plenamente efetiva e realmente laboriosa na Criação, atuação que somente poderá ser efetuada pela possibilidade ininterrupta de irradiações através de todas as espécies da Criação. Pois apenas nas irradiações se encontra a vida, e somente delas e através delas surge movimento.
Durante esse tempo a criança, que só pode atuar de modo pleno sobre o seu ambiente pela sua parte enteal, não porém pelo núcleo espiritual, tem, perante as leis da Criação, um pouco mais de responsabilidade do que um animal em desenvolvimento máximo.
Nesse ínterim vai amadurecendo o corpo jovem e, pouco a pouco, nele desperta a força sexual, que se encontra apenas na matéria grosseira. Ela é a mais fina e a mais nobre flor de toda a matéria grosseira, o mais elevado que a Criação de matéria grosseira pode oferecer. Por sua delicadeza constitui o ápice de tudo quanto é de matéria grosseira, isto é, terrenal, que se encontra mais perto da entealidade, como último reflexo vivo da matéria. A força sexual é a vida pulsátil da matéria, e só ela pode constituir a ponte para a entealidade que, por sua vez, proporciona a passagem para o espiritual.
Por esse motivo o despertar da força sexual no corpo de matéria grosseira é como o processo do abaixar da ponte levadiça de um castelo até então fechado. Com isso poderá a moradora desse castelo, isto é, a alma humana, sair preparada plenamente para a luta; na mesma medida, porém, poderão chegar a ela também os amigos ou inimigos que cercam esse castelo. Tais amigos ou inimigos são, antes de mais nada, as correntezas de matéria fina de espécie boa ou má, mas também os do Além que aguardam apenas que se lhes estenda a mão mediante algum desejo, com o que ficam em situação de se agarrarem firmemente e exercerem influência de igual espécie.
As leis do Criador, porém, só permitem entrar sempre, de fora para dentro, numa intensificação natural, a mesma força que de dentro possa ser contraposta, de maneira a ficar totalmente excluída uma luta desigual. – Enquanto aí não se pecar. Pois todo e qualquer instinto sexual antinatural que for despertado por estímulos artificiais abre prematuramente esse forte castelo, pelo que a alma ainda não fortalecida uniformemente fica entregue ao desamparo. Terá de sucumbir às correntezas de matéria fina más e assaltadoras, as quais de outro modo estaria absolutamente em condições de enfrentar.
Num amadurecimento normal, devido a fenômeno natural, só pode haver sempre a mesma força em ambos os lados. A decisão aí, porém, é dada pela vontade do habitante do castelo e não pela dos assediadores. Assim, com boa vontade, ele sempre vencerá na matéria fina; isto é, nos acontecimentos do mundo do Além, o qual o ser humano mediano não pode ver enquanto se encontra na Terra, e o qual, no entanto, está estreitamente ligado a ele e de modo muito mais vivo do que o seu ambiente de matéria grosseira a ele visível.
Se o habitante do castelo, porém, espontaneamente, isto é, por desejo próprio ou livre resolução, estender a mão a um amigo ou inimigo de matéria fina que se encontre do lado de fora, ou também a correntezas, então evidentemente é algo completamente diferente. Visto que, através disso, ele se sintoniza com uma determinada espécie dos sitiantes que esperam do lado de fora, assim podem estes, facilmente, desenvolver contra ele uma força dez e até cem vezes maior. Sendo ela boa, receberá auxílio, bênçãos. Sendo, porém, má, colherá destruição. Nessa livre escolha encontra-se a atuação de seu próprio livre-arbítrio. Uma vez que se decidiu a isso, então fica sujeito às conseqüências, incondicionalmente. Para essas conseqüências seu livre-arbítrio fica então excluído. Segundo a própria escolha, liga-se a ele carma bom ou mau, ao qual evidentemente está sujeito, enquanto não se modificar interiormente. —
A força sexual tem a tarefa e também a faculdade de “incandescer” terrenalmente toda a intuição espiritual de uma alma. Só assim pode o espírito receber uma ligação certa com a matéria toda, só assim também se torna de pleno valor, terrenalmente. Apenas então consegue abranger tudo o que é necessário para se fazer valer plenamente nesta matéria, a fim de estar firme nela, influenciar de modo incisivo, ter proteção e, aparelhado de tudo, exercer vitoriosa resistência.
Há algo gigantesco nessa ligação. Essa é a finalidade principal desse enigmático e imensurável instinto! Deve ajudar o espiritual a desenvolver-se nesta matéria à plena força de atuação! Sem essa força sexual isso seria impossível, por falta de uma transição para a vivificação e o domínio de toda a matéria. O espírito permaneceria demasiado estranho à matéria, para nela poder manifestar-se direito.
Com isso, porém, o espírito humano recebe então também a força plena, seu calor e sua vitalidade. Somente com esse processo se torna terrenalmente preparado para a luta.
Por isso principia aqui, pois, a responsabilidade! Um sério ponto de transição na existência de cada ser humano.
A sábia justiça do Criador outorga ao ser humano, porém, nesse importante momento, simultaneamente, não apenas a possibilidade, mas sim até o impulso natural para desembaraçar-se com facilidade e sem esforço de todo o carma com que até então sobrecarregou seu livre-arbítrio!
Se o ser humano perde o tempo, então a culpa é dele. Refleti sobre isso: com a entrada da força sexual manifesta-se de modo preponderante um impulso poderoso para cima, para tudo o que é ideal, belo e puro! Isso é nitidamente observável na juventude incorrupta de ambos os sexos. Daí o entusiasmo dos anos da mocidade, infelizmente muitas vezes ridicularizado pelos adultos. Por isso também nesses anos as intuições inexplicáveis e levemente melancólicas.
Não são infundadas as horas em que parece que um moço ou uma jovem têm de carregar toda a dor do mundo, quando lhes surgem pressentimentos duma profunda seriedade. Também o não se sentir compreendido, que tão freqüentemente ocorre, contém em si, na realidade, muito de verdadeiro. É o reconhecimento temporário da conformação errada do mundo em redor, o qual não quer nem pode compreender o sagrado início de um vôo puro às alturas, e só está satisfeito quando essa tão forte intuição exortadora nas almas em amadurecimento é arrastada para baixo, para o “mais real” e sensato, que lhe é mais compreensível e que considera mais adequado à humanidade, julgando, em seu sentido intelectual unilateral, como o único saudável!
A graça misteriosamente irradiante duma jovem ou dum moço incorruptos não é outra coisa senão o puro impulso ascendente da força sexual que desperta, visando o que é mais elevado, mais nobre, em união com a força espiritual, intuído junto pelos que convivem com eles!
Cuidadosamente, o Criador dispôs que isso sucedesse no ser humano numa idade em que pudesse ter plena consciência de sua vontade e de sua ação. Então, é chegado o momento em que ele pode libertar-se, aliás, devia libertar-se como que brincando de todo o passado, através dessa ligação com a força plena nele agora existente. Cairia até por si, se a pessoa mantivesse a vontade para o bem, a que ela é impulsionada continuamente nesse período. Poderia, então, como indicam bem acertadamente as intuições, escalar sem esforço aquele degrau ao qual ela pertence como criatura humana! Contemplai o estado sonhador da juventude incorrupta! Não é outra coisa senão a intuição do impulso ascendente, do querer libertar-se de todas as impurezas, o anseio ardente para o que é ideal. A inquietação impulsionadora é, porém, o sinal para não perder tempo, e sim para libertar-se energicamente do carma e principiar com a escalada do espírito.
É algo maravilhoso estar nessa força concentrada, atuar dentro dela e com ela! Contudo, apenas enquanto a direção que a pessoa escolher for boa. Outrossim, nada há de mais miserável do que malbaratar essas forças unilateralmente em cego delírio sensual, paralisando com isso o seu espírito.
Mas, infelizmente, infelizmente o ser humano perde na maioria dos casos esse tão precioso período de transição, deixando-se guiar, pelos “esclarecidos” que o rodeiam, para caminhos falsos que o retêm, levando-o em seguida para baixo. Assim não consegue libertar-se das vibrações turvadoras que dele pendem; pelo contrário, estas recebem novo suprimento de forças de sua espécie igual e com isso o livre-arbítrio do ser humano é enredado mais e mais, até que não consegue mais reconhecê-lo, por causa de tantas desnecessárias excrescências. Assim como nas trepadeiras, às quais um tronco sadio oferece no início apoio protetor e que por fim tiram a vida desse tronco, cobrindo-o inteiramente e estrangulando-o.
Se o ser humano desse mais atenção a si próprio e aos fenômenos em toda a Criação, carma algum podia ser mais forte do que seu espírito que se aproxima na plenitude de sua força, tão logo receba, através da força sexual, ligação completa com a matéria, à qual, pois, pertence o carma.
Mesmo quando o ser humano perde a época, enredando-se ainda mais, talvez até caindo profundamente, apesar disso ainda se lhe oferece ensejo para a ascensão: através do amor!
Não o amor cobiçoso da matéria grosseira, mas o elevado e límpido amor, que nada mais conhece e visa senão o bem da pessoa querida. Pertence também à matéria e não exige nenhuma renúncia, nenhuma penitência, mas apenas quer sempre o melhor para outrem. E tal querer, que jamais pensa em si próprio, constitui também a melhor proteção contra qualquer ato abusivo.
Mesmo na idade mais avançada, o amor tem sempre de novo, como fundamento, as intuições que aspiram por ideais da juventude incorrupta, que esta sente no irromper da força sexual. Contudo, manifesta-se de outra forma: estimula a pessoa madura até a força plena de sua capacidade total, sim, até ao heroísmo. A tal respeito não há limite algum devido à idade. A força sexual persiste, mesmo quando o instinto sexual, inferior, se acha excluído, pois a força sexual e o instinto sexual não são uma só coisa.
Tão logo uma pessoa dê guarida ao amor puro, seja o dum homem por uma mulher ou vice-versa, por um amigo, por uma amiga, pelos pais, pelos filhos, não importa; contanto que seja puro, traz também como primeira dádiva a oportunidade para a remição do carma, que pode ser dissolvido mui rapidamente, “de modo simbólico”. “Seca”, por não encontrar mais nenhuma ressonância análoga, nenhuma nutrição na criatura humana. Com isso ela se torna livre! E assim começa a escalada, a libertação das correntes indignas que a prendem embaixo.
A primeira intuição que aí desperta é o julgar-se indigno diante do ser querido. Pode-se denominar esse fenômeno de princípio da modéstia e da humildade, portanto, o recebimento de duas grandes virtudes. A isso junta-se o impulso de manter a mão sobre o outro, protetoramente, a fim de que não lhe aconteça algum mal de nenhum lado. O “querer trazer nas palmas das mãos” não é um ditado oco, mas sim caracteriza mui acertadamente a intuição que brota. Nisso, porém, se encontra uma abdicação da própria personalidade, uma grande vontade de servir, o que, por si só, poderia bastar para eliminar em pouco tempo todo o carma, tão logo essa vontade perdure e não dê lugar a instintos puramente sensuais. Por último, manifesta-se ainda, no amor puro, o desejo ardente de poder fazer algo bem grande para o outro ser querido, no sentido nobre, de não ofendê-lo ou feri-lo com nenhum gesto, nenhum pensamento, nenhuma palavra, muito menos ainda com uma ação feia. Torna-se viva a mais delicada consideração.
Trata-se, então, de segurar a pureza dessa intuição e colocá-la à frente de tudo o mais. Nunca alguém, nesse estado, ainda quererá ou fará algo de mal. Simplesmente não consegue, mas sim, pelo contrário, tem nessas intuições a melhor proteção, a maior força, o mais bem-intencionado conselheiro e auxiliador.
O Criador, em Sua sabedoria, deu com isso uma bóia de salvação, que não somente uma vez na existência terrena toca em cada criatura humana, a fim de que nela se segure e por ela se alce!
O auxílio está à disposição de todos. Nunca faz uma distinção, nem à idade nem ao sexo, nem ao pobre nem ao rico, tampouco ao nobre ou ao humilde. Por essa razão o amor é também a maior dádiva de Deus! Quem compreende isso está certo da salvação de todas as vicissitudes e de todas as profundezas!
O amor é capaz de arremessá-lo para cima, com o ímpeto da tempestade, para a Luz, para Deus, já que Ele próprio é o amor. —
Tão logo num ser humano se manifeste o amor, que se esforça por proporcionar a outro luz e alegria, não o degradando mediante cobiças impuras, mas sim soerguendo-o protetoramente bem alto, então ele serve a esse outro, sem se tornar consciente do servir, propriamente, pois torna-se assim mais um doador desinteressado, um alegre presenteador. E esse servir liberta-o!
A fim de encontrar o caminho certo, atente o ser humano sempre apenas numa coisa. Paira sobre todos os seres humanos terrenos, de modo imenso e forte, um desejo: poder ser,realmente, diante de si mesmos, aquilo que valem diante daqueles pelos quais são amados. E esse desejar é o caminho certo! Conduz imediatamente às alturas.
Muitas oportunidades são oferecidas aos seres humanos para tomarem impulso e ascenderem, sem que delas se utilizem.
O ser humano de hoje é como um homem ao qual foi dado um reino e que prefere malbaratar seu tempo com brinquedos infantis.
Evidente é, e nem se pode esperar de outro modo, que as forças poderosas outorgadas ao ser humano terão de destroçá-lo, se não souber dirigi-las.
Também a força sexual terá de destruir o ser humano individual, povos inteiros, lá onde se abusar de sua finalidade principal! A finalidade da geração só vem em segundo lugar.
E que meios de auxílio oferece a força sexual a cada pessoa, a fim de que reconheça a finalidade principal e a vivencie!
Pense-se na intuição do pudor corporal! Desperta simultaneamente com a força sexual, é dada para proteção.
Como em toda a Criação há também aqui um trítono, e no descer reconhece-se igualmente um desenvolvimento cada vez mais grosseiro. A intuição do pudor, como a primeira conseqüência da força sexual, deve constituir o obstáculo quanto à transição para o instinto sexual, a fim de que o ser humano em seu alto nível não se entregue à prática sexual animalescamente.
Ai do povo que não der atenção a isso!
Uma forte intuição de pudor cuida para que o ser humano jamais possa sucumbir a uma embriaguez sensual! Protege contra paixões, pois, devido a fenômeno completamente natural, jamais permitirá oportunidades para a perda do autocontrole, nem sequer pela fração de um momento.
Somente com muita força consegue o ser humano afastar, mediante sua vontade, essa maravilhosa dádiva, para então comportar-se animalescamente! Tal violenta intromissão na ordem universal do Criador terá, porém, de tornar-se maldição para ele, pois a força do instinto sexual corpóreo assim libertada não lhe é mais natural em seu desencadeamento.
Faltando a intuição do pudor, o ser humano transforma-se de senhor em servo, é arrancado de seu degrau humano e colocado ainda abaixo do animal.
Pondere o ser humano, somente acentuado pudor impede a oportunidade de queda. Com isso lhe é dada a mais vigorosa defesa.
Quanto maior for o pudor, tanto mais nobre será o instinto, e tanto mais alto espiritualmente estará o ser humano. É essa a melhor medida do seu valor espiritual interior! Essa medida é infalível e facilmente reconhecível por qualquer pessoa. Com o estrangulamento ou afastamento do sentimento exterior do pudor, ficam também, concomitantemente, sempre asfixiadas as propriedades anímicas mais finas e mais valiosas e, com isso, desvalorizado o ser humano interior.
Um sinal infalível de queda profunda e de decadência certa é quando a humanidade começa, sob a mentira do progresso, a querer “erguer-se” acima da jóia do sentimento de pudor, tão favorecedora sob todos os aspectos! Seja isso, pois, sob o manto do esporte, da higiene, da moda, da educação infantil ou sob muitos outros pretextos para isso bem-vindos. Não se pode então impedir a decadência e a queda, e apenas um horror da pior espécie poderá levar ainda alguns à reflexão.
E, todavia, é facilitado ao ser humano terreno enveredar pelo caminho das alturas.
Basta que se torne somente “mais natural”. Ser natural, porém, não significa andar seminu por aí, ou perambular descalço, com trajes extravagantes! Ser natural significa atender cuidadosamente às íntimas intuições e não, eximir-se veementemente das admoestações das mesmas! Apenas para não parecer fora de moda.
Infelizmente, porém, mais da metade das criaturas humanas já chegaram hoje a tal ponto, que se tornaram demasiado broncas para ainda compreenderem as intuições naturais. Para tanto já se restringiram excessivamente. Um grito de pavor e de horror será o fim disso!
Feliz daquele que então puder vivificar novamente o sentimento do pudor! Tornar-se-lhe-á escudo e apoio, quando tudo o mais se destroçar.